Lulismo: Dois mestres respondem a FHC

A Folha publicou, no dia 11, duas respostas primorosas ao artigo de FHC. De dois mestres: Cândido Mendes e Delfim Neto.

Para onde não vamos

CANDIDO MENDES

O ex-presidente pergunta-se, indeciso, para onde vamos. Mas as próximas eleições mostrarão para onde não voltamos

O ARTIGO do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ("Para onde vamos") revigora todo o debate político nacional, tirando as oposições de sua presente e contundente mediocridade. Amplo no propósito e na riqueza polêmica, parte da afirmação de que tudo que é bom no atual governo já veio de antes e que o mal de agora apenas começa.
Há, sim, confronto radical entre os dois regimes, ao contrário do que diz, e os tucanos abriram o país à globalização privatista hegemônica, enquanto o petismo vai hoje, com a melhoria social do país, à recuperação do poder do Estado, numa efetiva economia de desenvolvimento sustentável.
A legislação do petróleo, em projeto que ora assaca ao governo o ex-presidente, quer corrigir os efeitos da emenda constitucional de 1995, que desfigurou o monopólio do petróleo da Carta do dr. Ulysses num regime de concessão que, inclusive, entrega aos exploradores do subsolo nacional "a propriedade" do óleo extraído.
A partilha, sim, é o novo instrumento, nada "mal-ajambrado", em que volta, por inteiro, ao Estado o direito aos proventos dessa extração, ampliando sua destinação social imediata. Diga-o, agora, a Noruega, o país mais desenvolvido e democrático do mundo, que, exatamente, adotou esse regime nas suas riquezas do mar do Norte, deixando as concessões no cemitério das ideologias liberais capitalistas de há uma vintena.
O governo Lula reassegurou a presença do Estado para a efetiva mudança da infraestrutura, que pede o desenvolvimento, atrasado durante o progressismo liberal do PSDB, como mostravam os primeiros resultados do PAC, a contemplar entre os seus principais beneficiários, inclusive, o governo de São Paulo.
O país não frui ainda, claro, o programa Minha Casa, Minha Vida, mas sabe que o Bolsa Família colocou a população de uma Colômbia na nossa economia de mercado.
Claro, também enfrentamos o risco da absorção corporativa sindical no controle dos recursos públicos.
Mas essa é etapa adiante da página que se virou de vez, ou seja, do retorno ao controle pelo status quo, sob a ideologia social-democrata, de autolimitação do poder do Estado ou da crença dos progressismos espontâneos, sem dor para o país instalado, como professa a oposição a Lula.
O embaraço do tucanato em reconhecer o "entreguismo" dos controles públicos durante o seu governo é o mesmo que o alvoroça a assimilar o governo Lula ao "populismo autoritário peronista".
São comparações regressivas, que não se dão conta da experiência única da chegada do "outro país" ao poder, contra o desespero da violência dos "sem-nada", das Farc colombianas ou do Sendero Luminoso, no Peru, e assentou, de vez, uma maioria nacional, consciente de suas opções.
Realizar-se ou não o que seja, hoje, na sua originalidade, o "povo de Lula", é a diferença entre o Brasil "bem" e o país da mudança.
O petismo não é o justicialismo peronista, e hoje a nossa consciência coletiva supera o próprio partido, na solidez do que não quer para o futuro.
Essa nossa adesão ao novo, aliás, foi adiante, até, da própria legenda e de suas siderações pelas vantagens do poder, nessa matriz de um evento político que torna as futuras eleições tão distintas de uma escolha da hora entre situacionismos cansados e oposições gulosas. E o Brasil potência, tão profligado pelo ex-presidente, é a configuração emergente desse país que sabe que não volta ao berço esplêndido da nação dos ricos.
Mais que a denúncia dos "pequenos assassinatos" a minar "devagarzinho" o espírito democrático, o que entra pelos olhos do Brasil na conduta de Lula é a determinação visceral do governo de não ceder a um terceiro mandato, avassaladoramente acolhível, se assim quisesse o presidente, por emenda constitucional, tal como o governo tucano desfigurou o monopólio do petróleo.
No inverso de Chávez, Lula, no seu gesto, reafirma o essencial da democracia, que é o cumprimento das regras do jogo, no que diga a Carta, por maior que seja o poder da hora de quem está no palácio.
O ex-presidente pergunta-se, indeciso, para onde vamos. Mas as próximas eleições mostrarão para onde não voltamos, tanto quanto a nação de Lula sabe que, no Brasil, é "o povo como povo" intrinsecamente melhor que as suas "elites como elites".
CANDIDO MENDES , 81, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, é presidente do "senior Board" do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e secretário-geral da Academia da Latinidade.

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Lulismo?

ANTONIO DELFIM NETTO

SURPREENDIDA COM a recuperação da economia brasileira e o imenso protagonismo de Lula no cenário internacional, cuja visibilidade interna é a aprovação de sua administração por três de cada quatro brasileiros, a oposição parece presa a um quadro de catalepsia.
Isso certamente não ajuda a continuidade do progresso institucional que conseguimos desde a Constituição de 1988 e que começa a nos distinguir claramente de alguns de nossos parceiros da América Latina. Estes insistem em repetir velhos erros do passado. Tentam curto-circuitos que a história mostrou levar a incêndios, mas não ao crescimento econômico sustentável.
A tragédia da discussão é que, em lugar de um programa que reforce as linhas corretas do governo Lula e leve à superação dos problemas que ele deixará, propõe-se retroagir ao caminho já percorrido. Não deixa de ser patético continuar a confundir um necessário Estado indutor forte com a fantasia de que o "mercado", por si mesmo, produz o "equilíbrio" mais conveniente para a sociedade.
É claramente possível criticar o "lulismo" por sua simpatia sindical, por seu aparelhamento e por muitos motivos. Mas qual governo não "aparelha" quando a administração pública não é profissionalizada e o número de "cargos de confiança" (sem vinculação à competência) é gigantesco?
O "aparelhamento" do Estado tem sido permanente e ligado não apenas a problemas geográficos, partidários ou ideológicos. Quem conhece Brasília sabe que se trata de um fenômeno "geológico". Cada presidente levou para lá e fixou (às vezes com duvidosos "concursos seletivos") um estrato de seus conterrâneos. Um corte do terreno mostra as "camadas" (os mineiros, os maranhenses, os alagoanos, os paulistas, os sindicalistas...) sobre as quais cada governo acrescentou a sua, respeitando cuidadosamente as anteriores...
É preciso reconhecer que a rápida recuperação se deve a pelo menos dois pontos que dependeram do próprio comportamento de Lula. Primeiro, com sua inteligência e perspicácia, rejeitou o terceiro mandato, que destruiria toda a obra institucional constituída em 1988; segundo, com sua intuição, assumiu o risco de minimizar a crise, afastando o "pânico", e reforçou as políticas públicas que deram sustentação ao consumo interno.
Isso não é pouca coisa, e é por isso que ele tem o apoio de 3/4 da população!
A eleição de 2010 não pode se fazer em torno das pobres alternativas de, ou voltar ao passado, ou dar continuidade a Lula. A discussão precisa incorporar os horizontes do século 21 e a superação dos problemas que certamente restarão do seu governo.

 
 

O filho de FHC e o silêncio dos jornalistas

Essa é uma história que fala sobre o caráter, e sobre a falta dele.

Há 20 anos Lula disputava uma eleição parelha com Collor, um desconhecido governador de Alagoas, que meses antes havia sido ungido pela mídia e pelas elites para enfrentar o "Sapo barbudo", com sua varinha mágica (que depois se revelou um engodo) de "Caçador de Marajás". Era só o começo. Houve todo tipo de sujeira naquela eleição: O presidente da FIESP chantageou o povo ameaçando que os empresários deixariam o país; a edição do debate da Globo foi flagrantemente manipulado no noticiário da emissora; os sequestradores do empresário Abílio Diniz foram obrigados a vestir camisetas do PT na aprsentação para a imprensa. Mas o golpe mais sujo e de maior impacto veio mesmo na véspera das eleições. Uma ex-namorada de Lula, Míriam Cordeiro, veio à TV dizer uma série de calúnias contra Lula. Relembre esse episódio triste da nossa política e da nossa imprensa abaixo:

Vale lembrar que Lula já estava viúvo quando namorou Míriam, e não detinha cargo eletivo. Assumiu Lurian, a filha desse relacionamento fortuito, assim que ela nasceu. Sempre lhe foi próximo e a sustentou. Nada disso interessou à mídia, que amplificou as calúnias de Míriam sem qualquer investigação ou contraditório. Importava apenas tirar Lula do páreo, ganhar a eleição. O ponta de lança de Roberto Marinho, o jornal O Globo, publicou em 14 de dezembro de 1989 o editorial entitulado "O direito de saber", defendendo o indefensável: a exploração inescrupulosa de dramas familiares dos candidatos, como sempre "em nome da democracia". Pego de surpresa, Lula se recusou a responder no mesmo tom e se calou sobre as calúnias da ex-namorada, para preservar a filha. E aos 45 do 2º tempo, perdeu as eleições.

É interessante ressaltar que o adversário de Lula de então, Fernando Collor, tinha ele mesmo um filho fora do casamento. Lula e o PT sempre se recusaram a usar a informação.

Logo depois Lula teria como adversário na política um ex-companheiro da luta democrática, Fernando Henrique Cardoso. Este guardava zelosamente, em segredo, outro drama familiar: DURANTE seu mandato de senador e DURANTE seu casamento com Dona Ruth Cardoso, FHC teve um relacionamento com outra Mírian, Dutra, uma jornalista da Globo. Desse relacionamento nasceu um filho, Tomás. FHC não o reconheceu e o escondeu, para preservar sua carreira política. TODO o meio jornalístico sabia dessa relação e de seu fruto. NADA foi dito. Em 18 anos, apenas um veículo alternativo, a revista Caros Amigos, publicou reportagem sobre o assunto em 2000. A grande imprensa fez um pacto de silêncio. Não se sabe a que custo. Por 18 anos (dezoito anos!), ninguém se interessou em contar a história. Nem O Globo que, em 89, contra Lula, defendera tão ardorosamente "o Direito de Saber". Pelo contrário, foi a Globo que ajudou a esconder Mírian e seu filho na Europa, mantendo-a como correspondente de luxo, sem trabalhar. A que custo? Por 18 anos, até hoje, com a nota de Mônica Bérgamo na Folha. Que não se sabe ainda a que veio. Com certeza, serve a algum propósito essa "notícia", claramente autorizada, depois de 18 anos. Além de tudo, uma nota escrita de modo a fazer a assepsia do ato vil de FHC. O pai que escondeu o filho vira praticamente um herói com a matéria, decidindo assumi-lo. Dezoito anos depois.

Talvez você pensasse que a classe jornalística poderia ter revisto suas atitudes a partir do episódio Lula, e por isso estivesse tratando FHC com a dignidade que, em 89, fora negada ao atual presidente. Mas infelizmente, a exploração feita, recentemente, do filho de Renan Calheiros fora do casamento, com outra jornalista, não deixa dúvida que a postura da mídia apenas teve uma exceção: Fernando Henrique Cardoso.

Lula teria FHC como adversário desde as eleições de 1994. Como todo jornalista ele sabia de Tomás, mas jamais autorizou a utilização político-eleitoral do episódio.

Desce o pano. Pulamos para 1998, bastidores da privatização das teles:
“A imprensa está muito favorável, com editoriais”, diz Mendonça de Barros.
“Está demais, né?”, diz FHC em tom de brincadeira. “Estão exagerando, até.”

Engraçado, eu me lembro de quantas vezes me tomaram como mentiroso, ou doido, porque eu falava do filho que FHC não assumiu. Diziam: "Se é verdade, porque não saiu na Folha, na Veja ou no Jornal Nacional?" E eu pergunto agora: quantas verdades não vimos, não vemos e não veremos na Folha, na Veja ou no Jornal Nacional?

Para terminar essa reflexão necessária, anexo abaixo um vídeo com as campanhas de 1989, alguns personagens ainda estão por aí, desempenhando papéis diversos. Às vésperas das eleições de 2010, pense no quanto está em jogo, em quantas vezes você foi enganado pelas aparências, por palavras de ordem duras e moralistas, que papel desempenhou naquela ocasião e que papel pretende desempenhar daqui a um ano, diante da urna.

P.S.: Tomei emprestado aqui vários links do site Vi o Mundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, que é, a meu ver, quem tem feito a cobertura mais completa do assunto.

 
 

Caetano sobre Lula: nem Dona Canô aprova

Caetano é de leão, como eu, mas continua em seu inferno astral. Tomou outro tombo, tentou se retratar dizendo que Lula é "brilhante", mas nem assim se livrou das críticas. E dessa vez não foi só o povão e a blogosfera, mas sua própria família. Caê não foi perdoado nem por sua própria mãe. Deu no Blog do Marrom, do Correio da Bahia:

14/11/2009 17:58:00

Família Velloso pede desculpas ao Presidente Lula

Rodrigo Velloso, irmão de Caetano Veloso (foto) e Secretário Municipal de Cultura de Santo Amaro fez questão de esclarecer, através de um pedido de desculpas, que a família Velloso não tem nada a ver com a declaração do mano famoso. Eis o teor do documento:

'Venho a público esclarecer que a recente declaração, feita pelo cantor e compositor Caetano Veloso sobre o Presidente Lula, não expressa, em nenhuma hipótese, a opinião da família Velloso. Sua matriarca, Dona Canô, por mei intermédio, deseja se dirigir ao Governador Jaques Wagner, a todos os brasileiros e, principalmente, ao Presidente da República, com um sincero pedido de desculpas'.

Rodrigo Velloso

Mais D. Canô:

15/11/2009 às 20:37

Dona Canô pedirá desculpas pelo filho

Rita Conrado A TARDE
Dona Canô pretende ligar para o presidente: “Eu quero muito bem a Lula”
Dona Canô vai telefonar nesta segunda-feira, 16, para o presidente Lula para dizer que não concorda com as declarações do filho famoso, Caetano Veloso,  que chamou Lula de analfabeto, grosseiro e cafona numa entrevista (clique aqui para acessar) ao jornal O Estado de S. Paulo, provocando reações – positivas e negativas –  em todo o País.

Ela falará ao presidente depois que Rodrigo Velloso, irmão de Caetano, fez um pedido de desculpas, sexta-feira, num evento na Praça da Purificação, em Santo Amaro, em nome da família.

“Se ele me atender, eu falo com ele”, disse D. Canô, que ainda não sabe o que dizer. “Vou falar o que estiver sentindo na hora”, declarou a mãe de Caetano, de 102 anos. Mas a matriarca da família Velloso tem dúvidas sobre se Lula poderá atendê-la. “Tentei falar com ele no dia do seu aniversário, mas não consegui. Ele é muito ocupado”, assinalou D. Canô, que, apesar de não concordar com Caetano, disse que não será ela quem lhe puxará as orelhas.

Não merece - “Ele mesmo puxa, pois sabe que o presidente não merece isso”, assinalou.  A mãe de Caetano falou do carinho que nutre pelo presidente. “Eu quero muito bem a Lula”, afirmou. “Foi uma ofensa sem necessidade”, disse. “Caetano não tinha que dizer aquilo. Vota em Lula se quiser, não precisa ofender nem procurar confusão”, observou D. Canô, que não se mostrou preocupada com uma possível insatisfação de Caetano às suas declarações, se desculpando, ou às de seu irmão, Rodrigo.

“Ele está doido? Ele tem de aceitar”, disse, ressaltando que também não fará uma reprimenda ao filho. “Ele também não merece. É o jeito dele”, contemporizou. O irmão de Caetano, Rodrigo Velloso, secretário de Cultura de Santo Amaro, também atribuiu ao “jeito” de Caetano as declarações sobre o presidente, que achou absurdas.

Maluquice - “Caetano tem essa mania de falar as coisas sem pensar e aí diz coisas assim. Falou de maneira preconceituosa. Achei uma maluquice. Fiquei revoltado”, afirmou Rodrigo, ao contar a forma inesperada como surgiu o pedido de desculpas. “Eu participava de um evento em Santo Amaro, sexta-feira, e fui convidado a falar, como secretário de Cultura”, disse.  “Ao subir no palanque, a primeira coisa que me ocorreu, vendo ali o secretário Rui Costa (de Relações Institucionais do Estado), foi pedir a ele que transmitisse ao governador Jaques Wagner e ao presidente Lula o pedido de desculpas em nome da minha mãe e da nossa família”, afirmou Rodrigo. “Achei decente fazer isso”, assinalou.

Segundo Rodrigo, as declarações de Caetano foram feitas dois dias após o presidente Lula ter atendido a um pedido de D. Canô. “O presidente solicitou ao secretário da Saúde que ajude à  Santa Casa de Misericórdia, que está prestes a fechar”, contou Rodrigo, que desconhece as intenções de Caetano com  tais declarações. “Quem é que sabe? Pelo que conheço dele, já até esqueceu o que falou”, disse o irmão.

Além dos recados muito bonitinhos de D. Canô, uma das respostas mais contundentes que Caetano teve foi a de Zé Celso, homem do teatro brasileiro. É também uma das mais belas definições de Lula feitas recentemente:

Terça-Feira, 10 de Novembro de 2009

Tropicália, sob o signo de escorpião

José Celso Martinez Corrêa

No mesmo dia em que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no Caderno 2 do Estadão, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na seção Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da cultura, como estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca. Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto.  

Por outro lado, meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto para Marina Silva.

Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.

Percebi isso ao prefaciar a tradução em português crioulo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: Brutality Garden, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira, na Tulane University de New Orleans.

Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetés, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.

Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das Relações Exteriores, Marina Silva para o Meio Ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.

Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a "res pública". Tudo dentro de um futebol democrático admirável de cintura. Lula não pára de carnavalizar, de antropofagiar, pro País não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.

Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo, quando convoca os jornalistas da Folha de S. Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A interpretação da editoria é a do jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.

Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num teatro grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, lula é um intérprete dela: a vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômenos da escrita viva do mundo diante de seus olhos?

Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação.

Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarte grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na Estrela Brasyleira a Vagar - Cacilda!! para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendendo este programa tétrico.

Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. "Amor Ordem e Progresso." O amor guilhotinado de nossa bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.

Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta categoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos, como a sagração da natureza, a liberdade e a paixão pelo amor energia, santíssima eletricidade. Sinto que nessas duas pessoas de que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram.

A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai dedicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega à hierarquia máxima do teatro, a que corresponde ao papa no catolicismo: o palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é à toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.

Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Essa "estasia", Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que exista!

Lula faz política culta e com arte. Sabe que a cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é super, é infra estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazyleiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um país de poesia de exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:

"Vício na fala
Pra dizerem milho dizem mio
Pra melhor, dizem mió
Para telha, dizem teia
Para telhado, dizem teiado
E vão fazendo telhado"

SamPã, 6 de novembro, sob o signo de escorpião, sexo da cabeça aos pés, minha Lua de Ariano, evoéros!

 
 

Ennio Marchetto, o imitador de papel

Direto do Youtube, um artista talentoso...

 
 

A última pesquisa e o apagão da mídia

Nada que surpreenda, claro. Mas a mídia fez um auê do blecaute ocorrido semana passada, muito mais que naquele ocorrido em 1999, sob FHC. O mais importante é destacar que, apesar das tentativas da imprensa em convencer do contrário, o blecaute de agora, tenha as causas que tiver (a ONS já anunciou que se deveu a três raios simultâneos numa mesma linha de transmissão), não tem nada a ver com a falta de planejamento e, consequentemente, geração de energia que acarretou o apagão de FHC em 2001 e o racionamento nos dois últimos anos de seu governo. Claro que a imprensa não se conforma e tenta, a todo custo, relacionar as duas coisas. No vídeo abaixo, resposta de Lula a mais uma tentativa de "politicagem jornalística", dessa vez de uma jornalista da Globonews:

Pouca gente sabe, mas a repercussão incessante do "apagão" de Lula teve função dupla: de um lado, colocar o governo Lula (e a candidatura de Dilma, por extensão) em pé de igualdade com o de FHC, na área energética. O que é falso. De outro lado, a ocupação diuturna do noticiário com as causas e repercussões do blecaute permitiu esconder a notícia mais importante do período, que não seria omitida se o resultado fosse inverso: Dilma subiu 4 pontos e Serra caiu 4, na última pesquisa Vox Populi. Entendeu agora porque você não viu o resultado dessa pesquisa destacado em nenhum telejornal? Confira matéria do Estadão e delicie-se com o patético "apesar", que não poderia faltar no subtítulo (a diferença entre as rejeições de um e outro é de gigantesco 1%):

terça-feira, 10 de novembro de 2009, 20:57

Dilma sobe 4 pontos e Serra perde 4 em novo Vox Populi
Apesar do crescimento em relação a outubro, a ministra petista tem a maior rejeição; tucano ainda lidera

André Mascarenhas, do estadao.com.br
SÃO PAULO - Pesquisa eleitoral Vox Populi/Band divulgada pelo Jornal da Band nesta terça-feira, 10, mostra a recuperação da pré-candidatura da ministra-chefe da Casa Civil (PT), Dilma Rousseff, que já tem 19% das intenções de voto no cenário com o governador de São Paulo, o tucano José Serra. No último levantamento, em outubro, a pré-candidata petista tinha 15% dos votos. 

A enquete também mostra a retração das intenções de voto em Serra, que continua em primeiro lugar, com 36% das intenções de voto. No mês passado, o tucano tinha 40%. No mesmo cenário, o deputado federal Ciro Gomes, do PSB, aparece em terceiro, com 13% das intenções de voto. Heloisa Helena, do PSOL, tem 6%, e a senadora Marina Silva, do PV, 3%.

A margem de erro é de 2,4%. Dois mil eleitores foram ouvidos em 170 municípios de todos os Estados, menos Acre, Roraima e Rondônia.

Num segundo cenário, com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, como candidato tucano, Dilma aparece em primeiro lugar, com 20% dos votos. Nessa lista, a ministra está tecnicamente empatada com Ciro Gomes, que tem 19%, e Aécio, com 18%. Heloisa Helena aparece como 8% das intenções, e Marina com 4%.

A pesquisa também avalia o nível de rejeição dos pré-candidatos. Nesse quesito, Aécio é o que tem a menor rejeição, ou seja, apenas 5% dos eleitores disseram que não votariam de jeito nenhum no tucano. Ciro vem em segundo, com 8% de rejeição. Heloísa Helena foi citada por 10% dos entrevistados. Marina e Serra aparecem com 11%. Dilma Roussef tem a maior rejeição: 12%.

O instituto também testou o nível de decisão dos eleitores; 33% já decidiram em quem votar. Por fim, o Vox Populi mediu ainda o índice de aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que subiu de 65% em outubro para 68% em novembro.

Apagão do ROUBANEL

Para azar do maior partido de oposição do Brasil (não, eu não estou me referindo ao PSDB, mas à grande imprensa), Deus é justo e logo após o blecaute houve a queda das vigas, de 45m e 85 TONELADAS, do ROUBANEL de Serra. Por milagre, ninguém morreu. Um funcionário da Defesa Civil de São Paulo levantou a hipótese de que estão usando "cimento verde" na fabricação das vigas (o cimento não seca direito e fica mole por dentro). Pressa para inaugurar até as eleições? Confira o vídeo do jornalismo da Record, abaixo. Nenhuma outra emissora, dentre as grandes, deu.

Em seu blog, Luís Nassif, longe de fazer qualquer pré-julgamento político-eleitoral, fez sua obrigação de jornalista e, ao contrário da grande imprensa, lembrou que o ROUBANEL vinha sendo criticado em sucessivas fiscalizações, uma delas publicada no Jornal da Tarde:

Sábado, 14 novembro de 2009

Auditoria do TCU apontou alteração no projeto da obra

Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), entre maio e julho de 2008, apontou alterações no projeto básico da obra. Para reduzir os custos, as empresas contratadas alteraram métodos construtivos, com redução no número de vigas usadas em pontes, substituição de estacas metálicas por pré-moldadas e troca de areia por brita em muros de contenção. “Assim, usaram menos material de construção, mas receberam o mesmo dinheiro”, explica o relatório do Tribunal.

O documento do TCU aponta as irregularidades como “graves” e passíveis de resultar numa “combinação altamente danosa às finanças” da União e do Estado. “O desdobramento do processo pode gerar repactuação contratual, anulação do contrato e ressarcimento de valores.”

Integra o consórcio responsável pelo lote 5 a empresa Carioca. Trata-se da mesma empresa responsável pela obra do viaduto do Fura-Fila que caiu na Vila Prudente, em 1º de abril de 2008. O lote 5, com 35 pontes e viadutos, tem 18,6 km de extensão e representa 19,7% da obra.

No orçamento do trecho sul, mais de R$ 4 bilhões - sendo R$ 1,2 bilhão de recursos liberados pelo governo federal - estão incluídas a construção da rodovia, desapropriações e compensações ambientais.

O trecho leste do Rodoanel está em fase de discussões e a parte norte será a última a ser construída. Quando estiver toda finalizada, a rodovia interligará dez rodovias que servem a capital.

E essa é fresquinha, saiu hoje:

15/11/2009 - 08h33
Construtoras não cumpriram o contrato em obra do Rodoanel
da Folha Online

Auditoria realizada em 2007 e 2008 pelo TCU (Tribunal de Contas da União) constatou que as empreiteiras responsáveis pelo Rodoanel mudaram o material descrito em contrato e optaram por vigas pré-moldadas a fim de baratear o custo dos viadutos. É o que revela reportagem da Folha deste domingo (disponível para assinantes do jornal e do UOL).

Nesta sexta-feira (13), três vigas da obra caíram, atingiram veículos e deixaram três pessoas feridas.

O trecho sul --onde as vigas despencaram sobre carros na noite de anteontem-- está sob investigação do tribunal, que já listou 13 irregularidades no percurso de 61 quilômetros.

O secretário de Transportes de São Paulo, Mauro Arce, negou que estejam sendo utilizados materiais mais baratos. Segundo ele, algumas falhas apontadas pelo TCU foram resolvidas com um TAC (termo de ajustamento de conduta). Ele não nega, no entanto, que possam ter ocorrido problemas com o material utilizado na viga que causou o acidente.

Os contratos de obra de todo o Rodoanel (sem contar outros gastos, como desapropriações), que somam R$ 3,6 bilhões, são investigados pelo TCU desde 2003.

Acidente

Apesar de descartar a hipótese de falhas no projeto, o diretor de engenharia da Dersa e gestor responsável pela construção do Rodoanel, Paulo Vieira de Souza, admitiu que possa ter havido problemas na execução da obra.

As vigas, que pesam 85 toneladas e têm 40 metros de comprimento, haviam sido instaladas no começo desta semana. Por volta das 21h15, elas despencaram de uma altura aproximada de 20 metros e atingiram um caminhão e dois carros --um deles ficou totalmente destruído.

É o famoso choque de gestão tucano!

 
 

O que Hitler tem a ver com a UNIBAN?

Saiba assistindo ao divertidíssimo vídeo abaixo:

Pra quem não sabe, o Youtube está cheio de montagens sobre esse trecho do filme A QUEDA (quem ainda não teve a aportunidade, assista. Senão pelo filme, pela atuação magnífica do ator principal, Bruno Ganz, que pode ser percebida mesmo nos vídeos de sacanagem). Uma outra muito boa é a que faz alusão a José Serra nas eleições de 2010. Hilário:

 
 

Jurassic Park 2: Diploma de BURRO para a UNIBAN

Dizem que "errar é humano, mas persistir no erro é..." burrice, não? E que dizer quando os dois erros partem da direção de uma universidade, aquela instituição que deveria ser o templo do saber e base do convívio social civilizado?

Pois é. Lembram da Uniban? então, não satisfeita em falhar na proteção da estudante e promover um discurso no mínimo preconceituoso no dia do incidente, a reitoria da universidade expulsou a aluna, RESPONSABILIZANDO-A PELAS AMEAÇAS DE ESTUPRO E OFENSAS QUE RECEBEU. E tome protesto da sociedade! Assemelha-se assim, a Uniban, à outra ridícula instituição nacional, a oposição ao governo Lula. Não precisam de adversários, SUICIDAM-SE simplesmente com seus renitentes erros. "Burrice" é muito pouco pra essa turma...

 
 

O imperador Sarney e a oposição de ocasião

Os fatos:

  • Na onda do neo-"Fora Sarney", os jornalistas Palmério Dória e Mylton Severiano (Caros Amigos) lançaram o livro "Honoráveis Bandidos", que tem na capa a efígie do imperador do Maranhão (confira abaixo);
  • O livro foi boicotado pelas principais livrarias do Maranhão, sem justificativa;
  • A empresa responsável pela divulgação em outdoors devolveu o dinheiro e raspou as peças já colocadas, também sem maiores explicações;
  • Sem espaço comercial, os jornalistas aceitaram a oferta do Sindicato dos Bancários local, para lançar o livro em sua sede na capital;
  • Durante o evento, militantes da juventude do PMDB invadiram o salão, provocando tumulto e agredindo alguns dos presentes.

Claro, essa baixaria patrocinada pelo clã Sarney no Maranhão não foi repercutida nem pela atual oposição nem pela grande imprensa. Eles, que sempre apoiaram o bigodudo e dele se beneficiaram, patrocinaram recentemente uma campanha oportunista contra Sarney. Deixaram o senador ser de novo o presidente do Congresso, para depois ensaiar uma campanha das mais hipócritas na tentativa de apeá-lo da presidência, com o único objetivo de lá colocar o vice sem voto, senador Marconi Perillo, do PSDB, e desestabilizar o governo Lula. Ao que Lula, corretamente, reagiu, o que não foi entendido infelizmente por muitos. O jogo político é complexo, e o brasileiro de um modo geral é desinteressado de compreender seus meandros. Mas aos poucos, com muita luta de alguns abnegados, tá melhorando. Eu, que desde sempre faço campanha para banir Sarney da política, reitero o Fora Sarney! Mas não da presidência do Congresso, agora, em medida casuística e partidária-eleitoral. Mas para sempre, da vida pública nacional.

 
 

FHC: "Narciso acha feio o que não é espelho"

A exemplo de Caetano, Lula deu uma resposta à altura ao artigo golpista do invejoso FHC, essa semana, num Congresso do PCdoB. Foi a resposta que todos que o apoiamos tínhamos engasgada na garganta há muito tempo...

 
 

Paulo Niemeyer Filho por dentro do cérebro

A Revista Poder, de Joyce Pascowitch, publicou há algum tempo essa ótima entrevista com o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, considerado um dos maiores expoentes em sua especialidade. Achei interessante e replico na íntegra (antes que proíbam! rsrs). Dr. Paulo liderou a equipe que operou meu pai quando de um incidente sério, muitos anos atrás. O tratamento foi todo na Beneficência Portuguesa do Rio, e foi excelente. Salvou-lhe a vida.

28/01/2009 -  17:59    
Por dentro do cérebro

Chegar à casa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, no alto da Gávea, no Rio de Janeiro, é uma emoção. A começar pela vista deslumbrante da cidade, passando pelos macacos que passeiam pelos galhos até avistar as orquídeas que caem em pencas das árvores, colorindo todo o jardim. Cada uma dessas flores foi presente de um paciente do médico, que sua mulher, Isabel, replantou na parte externa da casa. Ou seja: a competência desse médico, com 33 anos de profissão, que dedica sua vida à medicina com a paixão de um garoto, pode ser contada em flores. E são muitas.
Filho do lendário neurocirurgião Paulo Niemeyer, pioneiro da microneurocirurgia no Brasil, e sobrinho do arquiteto Oscar Niemeyer, Paulo escolheu a medicina ainda adolescente. Aos 17 anos, entrou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Quinze dias depois de formado, com 23 anos, mudou-se para a Inglaterra, onde foi estudar neurologia na Universidade de Londres. De volta ao Brasil, fez doutorado na Escola Paulista de Medicina. Ao todo, sua formação levou 20 anos de empenho absoluto. Mas a recompensa foi à altura. Apaixonado por seu ofício, Paulo chefia hoje os serviços de neurocirurgia da Santa Casa do Rio de Janeiro e da Clínica São Vicente, onde atende e opera de segunda a sábado, quando não há uma emergência no domingo, e ainda encontra tempo para dar aulas no curso de pós-graduação em neurocirurgia da PUC-Rio.
Por suas mãos já passaram o músico Herbert Vianna – de quem cuidou em 2001, depois do acidente de ultraleve em Mangaratiba, litoral do Rio –, o ator e diretor Paulo José, a atriz Malu Mader e, mais recentemente, o diretor de televisão Estevão Ciavatta – marido da atriz Regina Casé que, depois de um tombo do cavalo, recupera-se plenamente –, além de centenas de outros pacientes, muitos deles representados pelas belas flores que enchem de vida o seu jardim.

PODER: Seu pai também era neurocirurgião. Ele o influenciou?
PAULO NIEMEYER: Certamente. Acho que queria ser igual a ele, que era o meu ídolo.
PODER: Seu pai trabalhou até os 90 anos. A idade não é um complicador para um neurocirurgião? Ela não tira a destreza das mãos, numa área em que isso é crucial?
PN: A neurocirurgia é muito mais estratégia do que habilidade manual. Cada caso tem um planejamento específico e isso já é a metade do resultado. Você tem de ser um estrategista..
PODER: O que é essa inovação tecnológica que as pessoas estão chamando de marcapasso do cérebro?
PN: Tem uma área nova na neurocirurgia chamada neuromodulação, o que popularmente se chama de marcapasso, mas que nós chamamos de estimulação cerebral profunda. O estimulador fica embaixo da pele e são colocados eletrodos no cérebro, para estimular ou inibir o funcionamento de alguma área. Isso começou a ser utilizado para os pacientes de Parkinson. Quando a pessoa tem um tremor que não controla, você bota um eletrodo no ponto que o está provocando, inibe essa área e o tremor pára. Esse procedimento está sendo ampliado para outras doenças. Daqui a um ou dois anos, distúrbios alimentares como obesidade mórbida e anorexia nervosa vão ser tratados com um estimulador cerebral. Porque não são doenças do estômago, e sim da cabeça.
PODER: O que se conhece do cérebro humano?
PN: Hoje você tem os exames de ressonância magnética, em que consegue ver a ativação das áreas cerebrais, e cada vez mais o cérebro vem sendo desvendado. Ainda há muito o que descobrir, mas com essas técnicas de estimulação você vai entendendo cada vez mais o funcionamento dessas áreas. O que ainda é um mistério é o psiquismo, que é muito mais complexo. Por que um clone jamais será igual ao original? Geneticamente será a mesma coisa, mas o comportamento depende muito da influência do meio e de outras causas que a gente nunca vai desvendar totalmente.
PODER: Existe uma discussão entre psicanalistas e psiquiatras, na qual os primeiros apostam na melhora por meio da investigação da subjetividade, e os últimos acreditam que boa parte dos problemas psíquicos se resolve com remédios. Qual é sua opinião?
PN: Há casos de depressão que são causados por tumores cerebrais: você opera e o doente fica bem. Há casos de depressão que são causados por deficiência química: você repõe a química que está faltando e a pessoa fica bem. Numa época em que se fazia psicocirurgia existiam doentes que ficavam trancados num quarto escuro e quando faziam a cirurgia se livravam da depressão e nunca mais tomavam remédio. E há os casos que são puramente psíquicos, emocionais, que não têm nenhuma indicação de tomar remédio.
PODER: Já existe alguma evolução na neurologia por causa das células-tronco?
PN: Muito pouco. O que acontece com as células-tronco é que você não sabe ainda como controlar. Por exemplo: o paciente tem um déficit motor, uma paralisia, então você injeta lá uma célula-tronco, mas não consegue ter certeza de que ela vai se transformar numa célula que faz o movimento. Ela pode se transformar em outra coisa, você não tem o controle, ainda.
PODER: Existe alguma coisa que se possa fazer para o cérebro funcionar melhor?
PN: Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, com a autoestima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter motivação. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a autoestima no ponto.
PODER: Cabeça tem a ver com alma?
PN: Eu acho que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma. Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo.
PODER: O que se pode fazer para se prevenir de doenças neurológicas?
PN: Todo adulto deve incluir no check-up uma investigação cerebral. Vou dar um exemplo: os aneurismas cerebrais têm uma mortalidade de 50% quando rompem, não importa o tratamento. Dos 50% que não morrem, 30% vão ter uma sequela grave: ficar sem falar ou ter uma paralisia. Só 20% ficam bem. Agora, se você encontra o aneurisma num checkup, antes dele sangrar, tem o risco do tratamento, que é de 2%, 3%. É uma doença muito grave, que pode ser prevenida com um check-up.
PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?
PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.
PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro?
PN: O exagero. Na bebida, nas drogas, na comida. O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra. É muito difícil um cérebro muito bem num corpo muito maltratado, e vice-versa.
PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?
PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.
PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?
PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem de saúde, de aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha, não é?
PODER: Você não vê contraindicações na manipulação dos processos naturais da vida?
PN: O que é perigoso nesse progresso todo é que, assim como vai criar novas soluções, ele também trará novos problemas. Com a genética, por exemplo, você vai fazer um exame de sangue e o resultado vai dizer que você tem 70% de chance de ter um câncer de mama. Mas 70% não querem dizer que você vai ter, até porque aquilo é uma tendência. Desenvolver depende do meio em que você vive, se fuma, de muitos outros fatores que interferem. Isso vai criar um certo pânico. E, além do mais, pode criar problemas, como a companhia de seguros exigir um exame genético para saber as suas tendências. Nós vamos ter problemas daqui para frente que serão éticos, morais, comportamentais, relacionados a esse conhecimento que vem por aí, e eu acho que vai ser um período muito rico de debates.
PODER: Você acredita que na hora em que as pessoas puderem decidir geneticamente a sua hereditariedade e todo mundo tiver filhos fortes e lindos, os valores da sociedade vão se inverter e, em vez do belo, as qualidades serão se a pessoa é inteligente, se é culta, o que pensa?
PN: Mas aí você vai poder escolher isso também. Esse vai ser o problema: todo mundo vai ser inteligente. Isso vai tirar um pouco do romantismo e da graça da vida. Pelo menos diante do que a gente está acostumado. Acho que a vida vai ficar um pouco dura demais, sob certos aspectos. Mas, por outro lado, vai trazer curas e conforto.
PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?
PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.
PODER: Paciente famoso dá mais trabalho?
PN: A revista New England Journal of Medicine publicou um artigo sobre as complicações do tratamento vip, mostrando que o perigoso nesse tipo de tratamento é que você muda a sua rotina. Eles deram o exemplo do papa João Paulo 2º e do ex-presidente norte-americano Ronald Regan, que levaram tiros. E mostraram momentos em que eles quase morreram porque, quando chega um doente desses, o hospital para, todo mundo quer ver e ajudar, a sala de cirurgia fica lotada, o cirurgião deixa de fazer um exame que devia ser feito porque pode doer… O doente vip acaba influindo nas decisões médicas pela importância que tem, e isso pode complicar o tratamento. Ele tem de ser tratado igualzinho ao doente comum, para poder dar certo.
PODER: Já aconteceu de você recomendar um procedimento e a pessoa não querer fazer??
PN: A gente recomenda, mas nunca pode forçar. Uma coisa é a ciência, e outra é a medicina. A pessoa, para se sentir viva, tem de ter um mínimo de qualidade. Estar vivo não é só estar respirando. A vida é um conjunto. Há doentes que preferem abreviar a vida em função de ter uma qualidade melhor. De que adianta ficar ali, só para dizer que está vivo, se o sujeito perde todas as suas referências, suas riquezas emocionais, psíquicas. É muito difícil, a gente tem de respeitar muito.
PODER: Como é o seu dia-a-dia?
PN: Eu opero de segunda a sábado de manhã, e de tarde atendo no consultório. Na Santa Casa, que é o meu xodó, nós temos 50 leitos, só para pessoas pobres. Eu opero lá duas vezes por semana. E, nos outros dias, na Clínica São Vicente. O que a gente mais opera são os aneurismas cerebrais e os tumores. Então, é adrenalina todo dia. Sem ela a gente desanima e o cérebro funciona mal. (risos)
PODER: Você é workaholic?
PN: Não é que eu trabalhe muito, a minha vida é aquilo. Quando viajo, fico entediado. Depois de alguns dias, quero voltar. Você perde a sua referência, está acostumado com aquela pressão, aquele elástico esticado.
PODER: Como você lida com a impotência quando não consegue salvar um paciente?
PN: É evidente que depois de alguns anos, a gente aprende a se defender. Mas perder um doente faz mal a um cirurgião. Se acontece, eu paro com o grupo para discutir o que se passou, o que poderia ter sido melhor, onde foi a dificuldade. Não é uma coisa pela qual a gente passe batido. Se o cirurgião acha banal perder um paciente é porque alguma coisa não está bem com ele mesmo.
PODER: Como você lida com as famílias dos seus pacientes?
PN: Essa relação é muito importante. As famílias vão dar tranquilidade e confiança para fazer o que deve ser feito. Não basta o doente confiar no médico. O médico também tem de confiar no doente. E na família. Se é uma família que cria caso, que é brigada entre si, dividida, o cirurgião já não tem a mesma segurança de fazer o que deve ser feito. Muitas vezes o doente não tem como opinar, está anestesiado e no meio de uma cirurgia você encontra uma situação inesperada e tem de decidir por ele. Se tem certeza de que ele está fechado com você, a decisão é fácil. Mas se o doente é uma pessoa em quem você não confia, você fica inseguro de tomar certas decisões. É uma relação bilateral, como num casamento. Um doente que você opera é uma relação para o resto da vida.
PODER: Você acredita em Deus?
PN: Não raramente, depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse, aquela adrenalina toda, quando você acaba de operar, vai até a família e diz: “Ele está salvo”. Aí, a família olha pra você e diz: “Graças a Deus!”. Então, a gente acredita que não fomos apenas nós.
PODER: Como você relaxa?
PN: Estudando. A coisa que mais gosto de fazer é ler. Sábado e domingo, depois do almoço, gosto de sentar e ler, ficar sozinho em silêncio absoluto.
PODER: E o que gosta de ler?
PN: Sobre medicina ou história. Agora estou lendo um livro antigo, chamado Bandeirantes e Pioneiros, do Vianna Moog, no qual ele compara a colonização dos Estados Unidos com a do Brasil. E discute por que os Estados Unidos, com 100 anos a menos que o Brasil, tiveram um enriquecimento e um progresso tão rápidos. Por que um país se desenvolveu em progressão geométrica e o outro em progressão aritmética.

 
 

Alô, alô, Terezinha!

Vou recomendar à minha meia-dúzia de leitores um filme imperdível, que assisti na semana passada: “Alô, alô, Terezinha” que mostra, com muita emoção mas principalmente muito bom humor, uma pequena parte da figura anárquica que foi o velho guerreiro, Chacrinha, estrela fulgurante da nossa telinha. Um documentário de mais de uma hora e meia que o público nem sente passar, pelo contrário, lamenta ao final não poder dar mais risadas. Segue o trailer:

Assistam, vale muito a pena! De quebra, o filme ainda mostra a sequência completa da qual vasou um dos grandes hits da internet deste ano, Biafra e o parapente...

 
 

18,5 MILHÕES ascendem de classe em apenas 3 anos de Lula

Adiantando porque Dilma vai ser eleita em 2010...

O Globo, 5/11/2009:

Pesquisa do Ipea aponta que 18,5 milhões de brasileiros ascenderam de classe social em três anos

Lino Rodrigues

SÃO PAULO - Em apenas três anos (entre 2005 e 2008), 18,5 milhões de brasileiros registraram elevação real em seus rendimentos individuais superior ao crescimento da renda per capita e à inflação, passando aos níveis mais altos de renda na pirâmide social.

A avaliação é de uma análise realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2008. Pelos dados divulgados pelo Ipea, 7 milhões de pessoas ascenderam à classe média e 11,5 milhões ingressaram na alta.

O documento do Ipea, que considera como classe superior de renda o valor acima de R$ 465 mensais, aponta que a ascensão aos níveis mais altos de renda se deu com mais intensidade nas regiões Sudeste e Nordeste, e atingiu uma parcela maior de indivíduos negros e do sexo feminino.

- Já temos uma elite negra no país, que se beneficiou desse crescimento na renda - disse o presidente do Ipea, Márcio Pochman.

A pesquisa apontou ainda que houve uma redução da participação do segmento de renda mais baixa da população entre os anos de 1995 e 2008. Em 1997, as pessoas que menos ganhavam representavam 34% da população. Em 2008, esta fatia caiu para 26%, o menor nível desde 1995. Já a classe média, que respondia 21,8%, cresceu para 37,4%, considerando a mesma base de comparação.

Recomendo também outra notícia de hoje... Lula recebe prêmio em Londres e homenageia povo brasileiro

Destaco o trecho a seguir, uma declaração de Lorde Robertson, presidente da Chatham House, algo que uma minoria intransigente, na imprensa e na opinião pública nacionais, precisa ouvir e refletir: "Durante muito tempo, ao mesmo tempo em que admirávamos o Brasil nos frustrávamos ao ver que os líderes anteriores ao senhor nunca desperdiçavam a oportunidade de desperdiçar a oportunidade".

P.S.: Lembrando aos cri-cris que os três anos citados aí em cima incluem a maior crise econômica mundial desde 1929...

 
 

Meu encontro com Letícia Sabatella

Ainda não falei aqui do meu encontro com Letícia Sabatella. Assisti no mês passado um documentário muito bom da nossa querida musa com Gringo Cardia, chamado Hotxuá. O documentário fala sobre um personagem existente na tribo Krahô, no Tocantins, que dá nome ao filme, responsável pela manutenção do equilíbrio e bem-estar daquela comunidade através do humor. O índio Ismael, focado no filme, encarna essa missão com satisfação e responsabilidade, usando os artifícios de um clown para provocar a tribo, seja para espantar alguma eventual tristeza ou raiva, seja para instigar um questionamento relevante.

Ambos, diretora e Hotxuá, estavam presentes na apresentação do filme, no Festival de Cinema de Salvador, e foi muito bom ouvi-los. Quanto à Letícia Sabatella, tenho a dizer que ela consegue ser ainda mais linda pessoalmente, transmite uma calma, uma paz incrível, é tão delicada, meiga, gentil… que eu não esperaria dela nada mais, mas a menina além de tudo é politizada e muito, muito inteligente.

Ao falar sobre os Krahô e refletir sobre sua experiência no filme, Letícia explicou a fala de um velho índio da tribo, num dos momentos mais tocantes da película. Ela contou como aquela tribo está sendo sitiada pela monocultura da soja e como isso é muito mais profundo do que apenas a contaminação dos alimentos, solo e rios pelo volume absurdo de venenos das fazendas ao redor. Os índios personificam os alimentos, dialogam com eles, que permeiam todo o imaginário daquela cultura, a ponto de as frutas, legumes, raízes terem participação expressiva em sua linguagem. Os alimentos fazem parte da sua visão de mundo e mitologia, nomeiam as coisas ao redor, algo muito difícil de nós, brancos, entendermos. Com o avanço implacável da monocultura, morrem os outros alimentos, morre a língua e a cultura dos índios. Morrem os Krahô.

Ao ouvir o discurso de Letícia, lembrei de seu debate com Ciro Gomes no Congresso (sobre a transposição do rio São Francisco). É fácil partirmos para o FlaxFlu, quem está certo e quem está errado, mas a coisa está longe de ser simples assim. Acho que os dois estão certos, embora expressem visão de mundo tão diversa, a maioria dos políticos representam de fato a visão de mundo predominante na sociedade. Mudar os políticos e o rumo do nosso desenvolvimento não será possível sem que a própria sociedade mude. As pessoas têm que decidir: que desenvolvimento queremos? o Brasil pode e deve, de fato, ir na contramão do mundo para liderar um novo modelo de desenvolvimento, que implique em mais qualidade de vida e preservação da cultura das minorias e dos recursos naturais, AINDA QUE isso signifique um pouco menos de comodidade e um lucro imediato menor? Quem está disposto a abrir mão de seu quinhão? ou vamos apenas ficar dizendo “Salvem a Amazônia!” (ou o Velho Chico, ou os índios..) enquanto ela continua a ser destruída para nosso próprio usufruto? ou vamos dizer "Salvem a Amazônia" e continuar lotando as churrascarias?

E me lembro da tentativa, perpetrada pela imprensa e pela oposição, de criminalização do MST. Incrível como alguns, os famosos "homens de bem", são capazes de manifestar indignação incontida com a derrubada de alguns pés de laranja, ao passo que têm sido incapazes de se indignar minimamente com a grilagem de terras, o latifúndio improdutivo diante de tanta miséria, os 713 milhões de litros de venenos agrícolas despejados todo ano em nosso solo, os 12 assassinatos somente no primeiro semestre deste ano, por conflitos no campo (segundo a Pastoral da Terra). Haverá sentido, haverá lucidez no homem que é capaz de se indignar mais com a derrubada de alguns pés de laranja e a ocupação de uma propriedade ("oh, salvem as propriedades dos homens de bem!") do que com o assassinato de um seu semelhante? É muito difícil, é uma luta e para chegarmos perto de uma solução há que se mudar radicalmente, antes de qualquer atitude, nosso modo de pensar.

E só para concluir, na mesma semana em que vi o filme assisti também, no Canal Livre, uma tentativa de debate sobre o trabalho e propostas de reforma trabalhista. Ao tocarem no tema da redução da jornada para 40 horas, os argumentos eram todos sobre a viabilidade e possíveis desdobramentos… do ponto de vista econômico. Toda a pauta, tudo o que importava, era a repercussão disso para “o mercado”. O deputado Vicentinho, defensor da redução, bem que tentou falar das razões sociais, do quanto isso implica também em melhor qualidade de vida e o quanto isso é importante para o SER HUMANO, tão ou mais que a grana (curiosamente, havia um sociólogo na mesa, mas ele tampouco achou esses aspectos relevantes), em vão. A pauta era uma só: economia. Essa é a pauta que norteia não só os nossos jornalistas, mas a vida de todos nós. E enquanto for assim, vamos ser sinceros, há como esperar que Krahôs, trabalhadores, natureza… ou mesmo a Letícia Sabatella e as belezas, como ela, já tão raras nesse mundo, resistam ao poderio e à determinação cega das grandes corporações?

P.S.: Ainda sobre essa visão economico-mecanicista do ser humano, que tenta reduzi-lo à máquina em função da maximização do lucro de alguns, nunca me esqueço do gênio de Chaplin em Tempos Modernos e de uma frase deliciosa de Faulkner: "Não desejo o dinheiro tanto assim a ponto de trabalhar por ele. Na minha opinião é uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer oito horas por dia, dia após dia, é trabalhar. Não se pode comer oito horas por dia, nem fazer amor oito horas – tudo o que se pode fazer durante oito horas é trabalhar. É esse o motivo pelo qual o homem se torna, a si e a todos os demais, infelizes e miseráveis."

Letícia e o Hotxuá: encantadores, cada um a seu modo...

Eu e a deusa: a cara de idiota denuncia meu incomensurável constrangimento em tietar...

 
 

Teletema e o Goldenrança...

Recentemente, o jornalista Luis Nassif postou em seu blog, que eu frequento assiduamente, um vídeo da Paula Toller cantando uma de nossas mais belas canções: Teletema. Surgiu uma discussão: Quem gravou essa bela música? Evinha ou Regininha, como discutiam os comentaristas Luiz Oliveira e Marombão?

O pior é que ambos tinham razão. Segundo o Cravo Albim, as duas irmãs gravaram a belíssima Teletema. Evinha fez mais sucesso com Casaco Marrom e Cantiga para Luciana, quanto à Teletema a versão de Regininha veio antes e provavelmente ficou mais famosa, porque foi a que emplacou na abertura da primeira produção da novela Véu de Noiva, de Janete Clair, ainda em 69 (Evinha a gravaria logo depois). Aliás, aquele veio a ser o primeiro disco com músicas compostas especialmente para a novela e o primeiro disco exclusivamente de trilha de novela, obra de Nelson Motta, um cara que tem um papel tão relevante na música brasileira dos últimos 40 anos que a gente até desculpa as bobagens que ele comete quando opina sobre política.

O fato é que não é fácil mesmo saber quem é quem, nessas versões. Tanto Evinha e Regininha, quanto sua irmã mais nova Marizinha, tinham voz parecida, suave e poderosíssima nos agudos, e fica difícil distinguir só ouvindo. Além disso, cantaram juntas por muito tempo e compartilhavam sucessos, o que torna tudo muito mais complicado. Pra dificultar mais, depois de um sucesso estrondoso até os anos 70, elas “sumiram”. Evinha casou com um músico francês e se mudou pra França. Marizinha também. Foram cuidar da vida, da casa, dos filhos, e só ocasionalmente se reúnem para celebrar a música, com um disco aqui, uma apresentação acolá... tudo sempre muito comemorado pelos fãs fidelíssimos, incluído este escriba, modestamente.

Roberto, Ronaldo, Renato, Regina, Mário, Eva e Mariza Corrêa, por ordem de nascimento. Sete irmãos daquela que talvez seja a família mais musical da música brasileira. Roberto, Ronaldo e Renato formaram, junto com o primo Valdir Anunciação, os Golden Boys. Regininha, Mário e Evinha, a primeira formação do Trio Esperança. Cantaram desde muito jovens, estouraram durante a Jovem Guarda e nunca pararam. Marizinha, a caçula, foi uma espécie de Simony, gravou ainda criança um disco infantil de sucesso. Já crescida, substituiu a irmã Regina no trio quando esta se afastou, e faria ainda muito sucesso nos anos 70 com a canção Mais Uma Vez, que emplacou na trilha da novela O Astro.

Sobre essa música, aliás, tem uma curiosidade, mais uma confusão. Eu tinha esse sucesso na cabeça, ouvi muito na minha infância, o refrão grudava como chiclete: “Quando algum amigo perguntar por mim/Diga que eu estou apaixonada/E se algum amigo duvidar de mim/Simplesmente não responda nada”. Queria achar a música mas não tinha nada em catálogo. Nessas horas, a salvação é a Internet, claro. Mas naquela época as coisas não estavam tão fáceis, eu precisava do nome da música ou da cantora. E eu jurava que a gravação era da Claudia Telles, outra cantora com “C” maiúsculo da nossa música, uma gracinha de pessoa que eu, aliás, adoro, e que merece também um post especial. Um dia assisti um show da Claudinha e fiquei com vergonha de falar com ela, tirar foto e tal, só pedi pra autografar o CD, ao que ela aquiesceu muito solicitamente. Um tempo depois comentei com o André, um amigo radialista, aquela situação. Contei que era fã da Claudia Telles e falei da música. Uns dias depois ele disse que encontrou a Claudinha e comentou. E qual não foi minha surpresa. Doce como sempre, Claudinha não só disse a ele que eu devia ter tirado as fotos, indicando outro show para nos encontrarmos, como lembrou daquele grande sucesso e disse que muita gente pensa que a música é dela mesmo, mas mandou certeira o nome da intérprete: Marizinha. Só mais tarde eu fiquei sabendo que Claudinha Telles não só conhecia Marizinha de longa data (foram colegas de escola) mas era amiga da família e também substituiu Regina no Trio Esperança. Mais uma vez, estava explicada a confusão tão comum. A voz doce de Claudinha também se assemelhava à das irmãs Corrêa.

Eu poderia ficar aqui falando um dia inteiro deles que são também considerados entre os melhores crooners do Brasil, gravaram com o Rei e dezenas de artistas do primeiro time da nossa MPB, muitas vezes não creditados nos discos por questões contratuais. A família também tem uma quantidade enorme de jingles gravados, a voz maravilhosa de Evinha está em filmes da Disney, enfim: Vocês certamente já ouviram as vozes desses irmãos brilhantes por aí, muitas vezes, mesmo que não saibam.

Fico pensando porque é tão difícil manter a história da nossa música, sobretudo dessa família talentosíssima de cantores negros, belas vozes e a mais alta técnica vocal. Penso se não há nisso, além do preconceito, um certo patrulhamento ideológico pelo fato de a Jovem Guarda ter sido, por muito tempo, considerada alienada naquele clima de FlaxFlu da ditadura militar. Evinha reconheceu isso com tranquilidade, numa entrevista de 1999: “Eu saía do colégio, de uniforme, e meu irmão sempre me pegava e eu ia de uniforme pra São Paulo. Depois, bem mais tarde, eu vim a saber que a gente era muito criticado... por talvez sermos 'alienados' etc., mas pra mim era pura brincadeira. Então agora, com o tempo, é que eu sei o quanto fomos criticados. Pra mim era uma maravilha fazer o programa do Roberto Carlos em São Paulo. Todo domingo a gente pegava avião pra São Paulo. Pra mim a Jovem Guarda era pegar avião, ir pra São Paulo, chegar lá e cantar.” Enfim, é uma lástima essa falta de reconhecimento, de memória do Brasil com seus melhores filhos. Tem origem naquele complexo de vira-lata, naquela educação colonizada que nos faz conhecer muito mais um Abraham Lincoln do que um Simon Bolívar ou um San Martín. Esses ícones da nossa música tinham que ser lembrados o tempo todo, estou fazendo a minha parte aqui. Abaixo, alguns vídeos que não me canso de rever, sempre impressionado com a afinação, as vozes lindas e a alegria de cantar dessa família maravilhosa da nossa MPB. Confiram vocês mesmos como canta fácil esse pessoal...

Evinha e sobrinho (filho do Mário) no Sem Censura, em outubro de 2005 – Parte 1:

Evinha e sobrinho (filho do Mário) no Sem Censura, em outubro de 2005 – Parte 2:

Evinha na Hebe, também em outubro de 2005 – Parte 1:

Evinha na Hebe, também em outubro de 2005 – Parte 2:

Aqui, a versão de Teletema de Evinha:

Aqui, a versão da irmã Regina, utilizada na novela:

 

 

Evinha emprestando sua voz para os ratinhos da Disney, Bernardo e Bianca:

Aqui, família completa, no Jô:

E o maior sucesso de Marizinha, que relatei acima:

Aqui, uma ótima entrevista com Evinha, de abril de 1999.

E aqui uma outra, no mesmo site, com todo o Trio Esperança.

P.S.1: Nessa entrevista, Regina afirma que Evinha é a voz na primeira abertura do Fantástico e a irmã não desmente. Mas eu ouvi a primeira abertura e posso jurar que quem sola é nossa querida Vanusa, agora tristemente famosa pelo hino. Se confundiram. Então, um doce pra quem souber em qual das aberturas Evinha canta...

P.S.2: Do meu comentário no Nassif, surgiu uma outra discussão paralela sobre se Teletema foi composta especialmente para a novela ou não. E uma bela história sobre a composição, enviada pelo J.Meirelhes. Aí vai:

 
 

Pra desopilar: Esse bebê A-D-O-R-A a Beyoncé!

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