Os onze melhores gols da seleção de 82

Bacanérrimo esse vídeo com os onze gols mais bonitos da seleção brasileira que jogou a copa de 82 e tinha em sua base um grupo ímpar, que jogava por música e sem olhar para a bola. Um grupo que viveu uma das maiores injustiças já documentadas no esporte: não terem sido campeões jogando o melhor futebol de sua geração. Para curtir a doce melancolia dos que perderam sabendo que eram melhores...

 
 

Adib Jatene apóia a CSS - Parte II

UOL: Ao propor novos impostos, ele não sairá desgastado?
Adib Jatene: Quem tem dinheiro tem condições de mobilizar a imprensa, fazer propaganda para dizer que a população está sendo prejudicada, que o beneficiário é o prejudicado pela CPMF. Não existe opinião pública. O que existe é opinião publicada que forma a opinião pública. Só ganha eleição quem tem bom marqueteiro e quem tem dinheiro para financiar o marketing. Se os industriais fazem oposição à medida, o ministro da Saúde vai ter apoio de quem? Do centro de saúde da periferia? Bom, ele está fazendo seu papel, está indo para o Congresso pedir mais recursos...
UOL: E quando o ministro deixará de sair com um pires na mão, para reivindicar mais recursos para a Saúde?
Adib Jatene: Nunca. Com ou sem a nova CPMF, ele continuará de pires na mão, porque precisa de mais recursos para fazer um bom trabalho. Por isso que, quando brincaram comigo há um tempo atrás, perguntando se eu aceitaria voltar a ser ministro da Saúde, eu disse que não. Que só aceitaria ser ministro da Fazenda, porque aí eu realmente teria como interferir na aplicação do dinheiro público.
UOL: E nunca te convidaram para este posto?
Adib Jatene: Não... [risos]
UOL: Por que não foi possível corrigir o problema da falta de recursos após 20 anos de Sistema Único de Saúde?
Adib Jatene: A discussão gira em torno de duas opções. Disputar a partilha do orçamento federal ou ter recursos vinculados para a assistência médica. Disputar a partilha do orçamento é sempre desfavorável, porque a saúde precisa competir com os investimentos de infraestrutura, de áreas mais prestigiadas no governo. É por isso que insistimos que num setor como a saúde deve-se ter recursos vinculados. Eu lutei por isso. O ministro José Serra [hoje governador de São Paulo] lutou por isso. Eu consegui a CPMF, mas ela foi esvaziada. Porque, no momento em que os recursos da CPMF começaram a ingressar, a área econômica do governo passou a retirar, das fontes que o Ministério da Saúde já tinha, um valor superior ao da CPMF.
UOL: Isso por intermédio da Desvinculação das Receitas da União?
Adib Jatene: A desvinculação era um item. A CPMF, que deveria ser um recurso a mais, passou a ser substitutivo. Passou a substituir os recursos que foram retirados da Saúde. O problema todo foi esse. O orçamento deveria crescer. Mas isso não aconteceu, porque reduziram os recursos na outra ponta, pelo orçamento.
UOL: E os recursos foram retirados para fazer o quê?
Adib Jatene: Eu não sei. Para atender as outras necessidades do governo. Eu não discuto as outras necessidades. O que eu discuto é que, constitucionalmente, se ofereceu um sistema público de saúde para atender toda a população. E os parlamentares estabeleceram, nas disposições transitórias da Constituição, que 30% do orçamento da Seguridade Social deveria ser destinado à Saúde.
UOL: O que daria hoje algo em torno de quanto?
Adib Jatene: No ano passado, o orçamento da Seguridade deu algo em torno de R$ 430 bilhões. Trinta por cento daria R$ 129 bilhões. Mas o orçamento da Saúde ficou em pouco mais de R$ 50 bilhões. Esse descompasso deixou a saúde numa posição muito desconfortável. O setor privado dispõe de quase R$ 2.000,00 per capita ao ano. O sistema público tem R$ 650 per capita ao ano. Só que o setor privado trabalha apenas na assistência médica hospitalar e ambulatorial. Enquanto a saúde pública, além da assistência médica, trabalha na vigilância epidemiológica, na vigilância sanitária, nas imunizações, numa série de ações que o setor privado não faz.
UOL: É isso o que explica a diferença na qualidade de atendimento entre um hospital público e um privado?
Adib Jatene: Com os recursos de que dispõe, é impossível o setor público ter um nível de assistência mais diferenciado. Os profissionais da saúde têm lutado há muito tempo para conseguir recursos. O ministro da Saúde não consegue na partilha do orçamento mais do que ele já tem. Mas ele precisa de mais recursos. Ele tenta fazer alguma coisa que já foi feita no passado para garantir mais recursos.
UOL: Um novo tributo, à imagem e semelhança da CPMF...
Adib Jatene: Por que não? A CPMF não causou nenhum prejuízo. Tanto que, quando ela foi extinta, não houve nenhum impacto para a sociedade. Não baixou preço de nada, não houve nenhum impacto, nem para as empresas nem para o povo.
UOL: Porque a Previdência se retirou da saúde?
Adib Jatene: O número de aposentados cresceu. Hoje, cerca de 30 milhões de brasileiros vivem com recursos da Previdência. Paga-se pouco, mas dá para o sujeito viver. Então, como ainda dizem que a população não tem nenhum benefício? Quer comparar o nosso sistema de saúde com o da França ou Canadá? Eles gastam US$ 2.500 per capita. Isso dá quase R$ 5.000,00 per capita. Nós dispomos de apenas R$ 650 reais per capita. É desonesto fazer esse tipo de comparação. As pessoas se esquecem da evolução dos países. Os países da Europa ocidental se desenvolveram com a Revolução Industrial. Naquele período, houve uma grande migração das pessoas para as cidades. Só que os trabalhadores não tinham nenhum direito. Trabalhavam 16 horas por dia, inclusive crianças. O que aconteceu? Surgiu Karl Marx, que escreveu uma doutrina sobre a exploração do trabalhador pelo capital. Mas eles passaram por isso 200 anos antes. E, nessa época, esses países tinham colônias. Eles drenavam a riqueza do resto do mundo. As grandes cidades da Europa foram construídas no século 19. É uma história absolutamente distinta da nossa. A China, hoje, tem um grande desenvolvimento econômico, mas não dá nada para o trabalhador. E todo mundo acha formidável a China. No Brasil, pelo menos, o trabalhador tem aposentadoria.
UOL: Quer dizer que o Brasil optou por um modelo de desenvolvimento mais humano?
Adib Jatene: A sociedade brasileira decidiu garantir ao menos a previdência e a saúde, e se engrandece com essa escolha. Está cuidando daqueles que podem menos e dando as mínimas condições de sobrevivência. Mas o setor da saúde não tem o mínimo de recursos para dar assistência à toda população. Como o Brasil não tem o volume de recursos suficientes para fazer o saneamento, o transporte, a segurança, a habitação. O Brasil ainda é um país pobre, que se industrializou muito recentemente. Nós temos de correr atrás do prejuízo. Mas houve um setor da nossa sociedade que se desenvolveu, que vive hoje como se estivesse num país de US$ 40 mil de renda per capita. É este setor que tem grande compromisso de corrigir as desigualdades.
UOL: E não cumpre esse compromisso?
Adib Jatene: Resiste. Eu digo sempre que no Brasil existe a sonegação ilegal, que é crime, precisa ser apurado, e a sonegação legal.
UOL: O que seria a sonegação legal?
Adib Jatene: São itens na legislação que permitem ao sujeito não pagar impostos. O nosso setor de exportação, por exemplo, não paga nada. Quantos bilhões ele movimenta? Não importa, o setor não paga nada. Então, se diz: "Não podemos exportar impostos". Ok. Mas como é que vou atender tantas pessoas nos hospitais. Dizia-se que a CPMF era um imposto ruim, com efeito em cascata, que afetava no preço do pãozinho, do café, do feijão... Era de se esperar que, com a retirada da CPMF, desmontasse a cascata e isso resultasse numa redução de preços. Passado um ano, eu pergunto: Aconteceu? Nada, absolutamente nada, eram argumentos falsos.
UOL: Os defensores da CPMF também costumam ressaltar seu papel na prevenção da sonegação de impostos.
Adib Jatene: É verdade. Quando criaram a CPMF, a Receita Federal ficou proibida de cruzar as informações do tributo para verificar as declarações de imposto de renda. Foi preciso que o Everaldo Maciel [secretário da Receita Federal no governo Fernando Henrique Cardoso] demonstrasse que, dos cem maiores contribuintes da CPMF, 62 nunca haviam pago Imposto de Renda. Ele também demonstrou a existência de microempresas, que por definição não podem movimentar mais de R$ 100 mil por ano, movimentando R$ 100 milhões por ano. Então, se permitiu o cruzamento de dados. E a arrecadação cresceu absurdamente, só com o indicativo da sonegação propiciado pela CPMF.
UOL: Quanto o Sistema Único de Saúde paga por cada consulta?
Adib Jatene: Paga-se, em média, R$ 7. Na época do Inamps, pagava-se seis unidades de valor. Cada unidade correspondia a 1% do salário mínimo. O salário mínimo, hoje, é R$ 475. É só fazer as contas. Hoje, isso daria R$ 28,50, o mesmo que os planos de saúde pagam aos hospitais particulares. Algumas seguradoras pagam mais, a maioria gira em torno disso. Só que o SUS só paga R$ 7. E esse descompasso ocorre em todos os procedimentos. É uma situação insustentável. Fizemos o Programa Saúde da Família, para oferecer atendimento básico a toda a população. Alcançamos 100 milhões de pessoas. Falta quase a metade dos brasileiros. Por que não atendemos todo mundo? Falta dinheiro. Se eu quiser construir hoje um centro de saúde numa área com deficiência, o secretário do município pode me dizer: "Não faça, porque eu não tenho dinheiro para colocar o hospital em operação".
UOL: O senhor disse certa vez que, pelo o que o SUS oferece, talvez ele seja o sistema de saúde mais bem gerido do mundo. Por quê?
Adib Jatene: Quando você trabalha com grande deficiência de recursos, você apura o seu desempenho. E ele vem sendo apurado. Vários hospitais de primeira linha foram buscar no SUS os seus gestores. Quem é o superintendente do prestigiado hospital Sírio Libanês? Gonçalo Vecina [ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e secretário da Saúde do município de São Paulo na gestão de Marta Suplicy (PT)]. Quer dizer que ele era um péssimo gestor quando estava no sistema público e agora é bom? Nada disso. O Sírio Libanês, o Albert Einstein têm recursos para gerir bem. O SUS não tem recursos para gerir.
UOL: E o que consegue fazer com o pouco que tem?
Adib Jatene: Anualmente, o SUS interna 11 milhões de pessoas, faz 3 milhões de partos, 400 milhões de consultas. Nós erradicamos a poliomielite, o sarampo, a rubéola. Nós vacinamos mais do que qualquer país do mundo. Temos um programa de combate à Aids que é referência internacional. Fazemos hemodiálise para uma quantidade brutal de pessoas. Cirurgias complexas. Os transplantes de fígado feitos no Albert Einstein é o SUS que paga. Oncologia, medicamentos que os planos de saúde não cobrem... É um trabalho tão grande, que a população que pode deveria vir ajudar espontaneamente, e não obrigada por tributos.

 
 

Adib Jatene defende a CSS - Parte I

Muito didática e contundente, nas críticas que faz à insensibilidade das elites nacionais, essa entrevista do médico e ex-ministro Adib Jatene, ao UOL. A argumentação do ministro desanca, um por um, diversos mitos sobre a saúde pública no País, mitos esses deliberadamente reforçados, com apoio da grande imprensa, pela elite econômica. Destaco um argumento em especial: a campanha de mídia construída para justificar o fim da CPMF, em que se dizia que o imposto era responsável por um efeito cascata na economia, que provocava a alta de preços. Assim, a CPMF cairia e os preços também. Só que a CPMF caiu e os preços continuaram no mesmo lugar, e a imprensa não foi cobrar. A maior grita contra a CPMF, é lícito que o espectador saiba, deve-se na verdade às características de controle de sonegação que esse imposto tinha. Foi por isso, principalmente, a batalha do poder econômico para derrubá-la. O trabalhador comum, como eu, deve ter em mente que a CPMF era um imposto justo, porque atingia a todos indiscriminadamente. Trabalhador, se você quer brigar por redução de impostos, o que é justo, brigue pela redução da alíquota do IR na fonte, esse é que tira o couro do trabalhador. Não sirva de massa de manobra dos grandes interesses econômicos. Defender imposto não é lá uma coisa muito bem vista, e com razão. Mas eu sugiro que o leitor esqueça os clichês que ouve por aí e reflita sobre os argumentos expostos, apenas.
A entrevista vai em duas partes. É longa, mas imperdível. Os grifos são deste blog.
"Com ou sem a nova CPMF, ministro da Saúde continuará de pires na mão", diz Adib Jatene
Ex-ministro da Saúde, o cardiologista acreano Adib Jatene, diretor do Hospital do Coração (HCor), tem sustentado há tempos a necessidade de se aumentar os investimentos públicos no Sistema Único de Saúde (SUS). Para ele, as cenas de horror e os recorrentes problemas no atendimento dos hospitais estatais não derivam de problemas de gestão, e sim da crônica falta de recursos para a assistência médica gratuita. Considerado o pai da CPMF (Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira), ele lutou pela aprovação do tributo em 1996, quando administrava a pasta da Saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Adib Jatene, 80 anos, foi secretário de Saúde do município de São Paulo e duas vezes ministro da Saúde, durante o governo Collor e na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Também foi um dos fundadores do Instituto do Coração, ligado à Universidade de São Paulo. Atualmente, é membro da Academia Nacional de Medicina e diretor-geral do Hospital do Coração (HCor). Além disso, preside a comissão de cursos de Medicina do Ministério da Educação, responsável por supervisionar a qualidade das graduações desta área no país Coerente com sua trajetória, o médico continua defendendo a criação de um tributo que vincule recursos para a saúde, razão pela qual cerra fileiras em defesa da Contribuição Social para a Saúde (CSS), proposta do governo Lula para ressuscitar a CPMF, com a cobrança de uma pequena porcentagem sobre as transações bancárias de empresas e pessoas físicas, objetivando a criação de um fundo para a saúde.
"Com os recursos de que dispõe hoje, é impossível o setor público oferecer uma assistência melhor às pessoas", avalia Jatene. "O ministro José Gomes Temporão está pedindo R$ 10 bilhões a mais. É pouco. Ele precisa de, no mínimo, mais R$ 50 bilhões. Com ou sem a nova CPMF, ele continuará com o pires da mão", conclui. Confira, a seguir, a entrevista que o médico concedeu ao UOL Notícias.
UOL: Por que o senhor defende a criação de um tributo para a saúde e a que atribui toda a mobilização pelo fim da CPMF?
Adib Jatene: A mobilização contra a CPMF surgiu da aversão aos impostos do setor mais diferenciado da sociedade. Os mais ricos resistem em assumir que são responsáveis por suprir necessidades da população de baixa renda. Há tempos a saúde pública precisa de mais recursos, especialmente após a ampliação da assistência a partir da Constituição de 1988. Mas, no momento em que se universalizou o acesso à saúde, simultaneamente, a Previdência Social se retirou do financiamento da assistência médica, causando um déficit para a saúde que até hoje não foi resolvido.
UOL: Isso porque, antes da Constituição de 1988, só tinha acesso à saúde pública quem tinha emprego formal e contribuía para a Previdência...
Adib Jatene: Sim, e eu já disse inúmeras vezes que os representantes regionais do extinto Inamps [Instituto Nacional Assistência Médica da Previdência Social] tinham mais poder que os secretários estaduais da saúde. Naquela época, uma grande parcela da população eram os indigentes, que não tinham direito a nada. E indigente era qualquer cidadão que não tinha emprego formal nem condições de pagar um hospital particular. No momento que universalizamos o atendimento, houve simultaneamente a crise da Previdência Social. O número de aposentados cresceu muito, até por conta da inclusão dos trabalhadores rurais no regime de aposentadorias. A Previdência chegou à conclusão de que não podia mais oferecer recursos para a saúde. O Inamps passou para o guarda-chuva do Ministério da Saúde e foram retirados todos os recursos da Previdência. Isso representou um rombo de mais de 50% no orçamento federal para a saúde. É isso que vem se tentando corrigir sem sucesso.
UOL: O senhor acha que a CPMF era um bom tributo?
Adib Jatene: Não estou discutindo se o tributo é bom ou ruim. Ofereçam-me outro tributo que seja melhor ou recursos de outra fonte. Houve oposição cerrada à CPMF porque ninguém queria pagar. Extinguiram-se R$ 40 bilhões, recursos que eram utilizados pelo governo. Você acha que, com as demandas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e de uma série de outras ações do governo, eles vão tirar recursos de outras áreas para dar para a saúde? Um país democrático tem que entender que o governo não gera recursos. Ele arrecada da atividade privada. Todo o dinheiro que governo tem sai das empresas, das pessoas. Se o governo passasse a imprimir dinheiro, criaria inflação. Em vez disso, ele cobra de quem pode pagar. Mas quem mais pode pagar é quem mais reclama de que paga muito.
UOL: A carga tributária não é elevada demais para o retorno social oferecido pelo governo?
Adib Jatene: Isso é uma falácia. Da carga tributária, é preciso retirar os recursos da Previdência Social, que não pertencem ao governo. Esses recursos são dos aposentados. Há 30 milhões de brasileiros recebendo aposentadoria. Isso não é benefício social. Tem países, como a China, nos quais o trabalhador não tem nenhum direito. Tem países em que a previdência é privada. No Brasil, ajustou-se um sistema, desde a época do presidente Getúlio Vargas, no qual seria retirada uma contribuição dos trabalhadores e dos empregadores, um recurso com destinação certa: o pagamento das pensões e aposentadorias. Isso tem que ser retirado da carga tributária, porque não pertence ao governo. Mesmo sem poder, o governo já fez isso no passado, quando havia um número reduzido de aposentados. Até para a construção da hidrelétrica de Itaipu foi usado dinheiro dos aposentados. Os grandes hospitais do Rio de Janeiro foram construídos todos com recursos da Previdência Social.
UOL: Qual é o tamanho da carga tributária brasileira se tirarmos da conta a Seguridade Social?
Adib Jatene: Se contar apenas os recursos que o governo pode utilizar, a carga tributária gira em torno de 25%. Se considerarmos um pouco de sonegação, um pouco menos do que isso. É por isso que vemos uma exuberância de determinados setores e uma pobreza enorme nos outros setores. Vá na avenida Berrini [zona sul da capital paulista] e veja toda aquela opulência, difícil de se encontrar em outros lugares do mundo. Mas ao lado vemos favelas, hospitais sem leito. É a assimetria característica do Brasil. O setor que conseguiu criar recursos, se desenvolver, quer crescer cada vez mais. E o setor que não tem recursos fica cada vez em maior dificuldade.
UOL: A elite brasileira é incapaz de estender a mão?
Adib Jatene: Esse é o problema. A elite financeira, a elite política, a elite intelectual... vive somente entre a elite. E quem se dispõe a ajudar os mais pobres e ir atrás dos recursos é combatido. O que o ministro José Gomes Temporão [Saúde] está fazendo é uma situação de desespero. Ele vê que pode fazer mais. Vê que tem uma parcela da população que tem tudo, da melhor forma que se faz no mundo. Mas ele não ignora que uma grande parcela da população não possui o mínimo para sobreviver. Ele vai buscar alguma coisa no orçamento e não consegue. Aí ele vem e propõe: "Eu preciso de R$ 10 bilhões a mais". É pouco. Ele precisa de, no mínimo, R$ 50 bilhões a mais. Mas as pessoas que podem oferecer isso sem nenhuma dificuldade, incluem qualquer novo tributo na sua planilha de custos, repassa o valor ao consumidor final e reclama.
UOL: Há quem diga que o problema da saúde, a exemplo da administração pública em geral, não é de falta de recursos, mas de gestão. O senhor concorda com isso?
Adib Jatene: Se há problema de gestão na administração pública, temos que falar com o ministro do Planejamento, o ministro da Fazenda. Se há alguma irregularidade na distribuição de recursos, nas licitações, no superfaturamento de obras, que eu ouço falar muito, é com eles que devemos falar, para apurar se houve desperdício de recursos públicos. Mas precisamos ver se na saúde pública há desperdício. Eu acho que não. Porque, na saúde, paga-se por serviços prestados. Quando fui ministro, combati fortemente as irregularidades e fraudes. Hoje, não sei se você notou, ninguém fala mais em irregularidades na saúde. Falam em falta de leito, em exame que demora, em falta de atendimento. Mas fraude eu não ouço mais falar.
UOL: Houve alguns episódios, como as denúncias da máfia das ambulâncias, da máfia dos sanguessugas, na compra de hemoderivados...
Adib Jatene: Isso ocorre em licitações. É crime e temos de punir os responsáveis. Mas, no pagamento das ações de saúde, ela é feita em relação a serviços já prestados. E como o volume de recursos é limitado, em cada Estado e município, há teto de pagamento para as instituições. Se um hospital atende acima do teto, o governo não paga. O hospital Beneficência Portuguesa atende pelo Sistema Único de Saúde. Cerca de 60% do atendimento é pela assistência pública. Mas o hospital recebe só 38%. O resto ele próprio precisa arcar. Vai entrevistar o Rubens Ermírio de Moraes, que é o atual presidente do hospital. Ele provavelmente dirá: "Ok, vocês não podem pagar mais do que 40% da minha capacidade, deixa eu atender o restante pelos planos de saúde, para que eu possa equilibrar minhas contas". Mas não, ele tem de atender a todos e arcar com a diferença. O Hospital das Clínicas também tem um teto. Se ele atende acima do teto, o governo não paga. É justo? É claro que não é justo. E o Ministério da Saúde não paga mais porque não tem dinheiro.
UOL: O senhor acredita que esse novo tributo será aprovado, a despeito de toda a pressão dos industriais contrários ao aumento da carga tributária?
Adib Jatene: O ministro da Saúde fez o seu papel. Porque ele tem a responsabilidade de dizer que estão faltando recursos, que ele não consegue obter mais verba dentro orçamento. Ele propôs uma alternativa. Se negarem os recursos, não foi por omissão dele. Antes de extinguir a CPMF, havia o compromisso do governo de repor ao menos R$ 25 bilhões para a Saúde. E não foi reposto. O ministro está pedindo R$ 10 bilhões, que representa 0,1% da movimentação financeira. O sujeito que movimenta R$ 1.000, vai pagar R$ 1. Quem movimenta R$ 100 mil por mês, vai gastar R$ 100. Ora, quem está nessa faixa de renda gasta muito mais que R$ 100 num almoço com a mulher no fim de semana. Mas ele não quer oferecer esse recurso. Então não venham acusar o ministro de não pelejar por uma saúde melhor.
UOL: Quando o senhor foi ministro, também teve de ficar com o pires na mão?
Adib Jatene: Sim. Eu vou dar um exemplo da diferença entre vinculação de recursos e a partilha do orçamento. Recentemente, as três universidades públicas paulistas (USP, Unicamp e Unesp) fizeram um balanço da vinculação de recursos. Até 1989, todas as greves nas universidades iam estourar no gabinete do governador. Nessa época, José Aristodemo Pinotti, que havia sido reitor da Unicamp, era secretário de Saúde do governador Orestes Quércia. Então, ele sugeriu ao Quércia vincular recursos para as três universidades. Estabeleceu-se 9,17% da arrecadação do ICMS. A USP ficou com 4,47% do ICMS. Nesta época, o orçamento da USP era exatamente igual ao do Hospital das Clínicas, cerca de US$ 300 milhões. A USP continuou com a sua parcela do ICMS, aumentou só um pouquinho a porcentagem, nada demais. E o Hospital das Clínicas ficou na disputa do orçamento ano a ano. Passados 20 anos, o orçamento da USP era mais que o dobro do orçamento do hospital.
UOL: Por que é tão difícil garantir recursos para a saúde na partilha do orçamento?
Adib Jatene: É um investimento que não tem retorno político. Sempre terá quem reclame, quem diga que precisava fazer mais. Mas se você faz uma grande obra, uma ponte estaiada, isso fica como realização do governo.
UOL: Pode construir um hospital, mas depois herdará as contas para mantê-lo funcionando...
Adib Jatene: Depois de inaugurado, você passa a gastar o dobro. Todo ano. O custo de manutenção anual costuma ser o dobro do investimento na construção. Se construir uma grande rede de hospitais, pode consumir todo o orçamento. Qual é a estratégia? Não faça. Eu tenho a prova aqui [diz, ao mostrar um mapa da cidade de São Paulo debaixo do tampo de vidro de sua mesa, na diretoria do HCor]. Temos 4 milhões de habitantes na cidade de São Paulo que moram em bairros sem nenhum leito hospitalar. Além disso, outros 4 milhões vivem em bairros com 1,2 leitos por mil habitantes, quando o mínimo aceitável seria 2,5 leitos. Enquanto isso, nós temos 1,8 milhão de pessoas vivendo em áreas que têm uma média de 13 leitos por mil habitantes, aí incluídos bairros como Jardim Paulista, Morumbi, Bela Vista. O descompasso é enorme, mesmo na cidade mais rica do país. O ministro da Saúde está no caminho certo, mas está pedindo pouco. Deveríamos caminhar para os 30% do orçamento da Seguridade, que daria algo em torno de R$ 120 bilhões.

 
 

Carta Capital: Eleições e mídia, tudo a ver

De vez em quando a gente encontra um artigo capaz de sintetizar com facilidade aquele monte de coisas que a gente tinha vontade de dizer. É o caso desse artigo de Emiliano José, na Carta Capital dessa semana:

Eleições e mídia, tudo a ver

Eu estava na ante-sala de uma médica, em Salvador. Sábado, dia 29 de agosto. E apenas por essa contingência, dei-me de cara com uma chamada de primeira página - uma manchetinha - da revista Época, já antiga, de março deste ano de 2009: A moda de pegar rico - as prisões da dona da Daslu e dos diretores da Camargo Corrêa.

Alguém já imaginou uma manchete diferente, e verdadeira como por exemplo, A moda de prender pobres? Ou A moda de prender negros? Não, mas aí não. A revolta é porque se prende rico. Rico, mesmo que cometendo crimes, não deveria ser preso.

Lembro isso apenas para acentuar aquilo que poderíamos denominar de espírito de classe da maioria da imprensa brasileira. Ela não se acomoda - isso é preciso registrar. Não se acomoda na sua militância a favor de privilégios para os mais ricos. E não cansa de defender o seu projeto de Brasil sempre a favor dos privilegiados e a favor da volta das políticas neoliberais. Tenho dito com certa insistência que a imprensa brasileira tem partido, tem lado, tem programa para o País.

E, como todos sabem, não é o partido do povo brasileiro. Ela não toma partido a favor de quaisquer projetos que beneficiem as maiorias, as multidões. Seus olhos estão permanentemente voltados para os privilegiados. Não trai o seu espírito de classe.

Isso vem a propósito do esforço sobre-humano que a parcela dominante de nossa mídia vem fazendo recentemente para criar escândalos políticos. E essa pretensão, esse esforço não vem ao acaso. Não decorre de fatos jornalísticos que o justifiquem.

Descobriram Sarney agora. Deu trabalho, uma trabalheira danada. A mídia brasileira não o conhecia após umas cinco décadas de presença dele na vida política do país. Só passou a conhecê-lo quando se fazia necessário conturbar a vida do presidente da República. O ódio da parcela dominante de nossa mídia por Lula é impressionante. Já que não era possível atacá-lo de frente, já que a popularidade e credibilidade dele são uma couraça, faça-se uma manobra de flanco de modo a atingi-lo. Assim, quem sabe, terminemos com a aliança do PMDB com o PT.

Não, não se queira inocência na mídia brasileira. Ninguém pode aceitar que a mídia brasileira descobriu Sarney agora. Já o conhecia de sobra, de cor e salteado. Não houve furo jornalístico, grandes descobertas, nada disso. Tratava-se de cumprir uma tarefa política. Não se diga, porque impossível de provar, ter havido alguma articulação entre a oposição e parte da mídia para essa empreitada. Talvez a mídia tenha simplesmente cumprido o seu tradicional papel golpista.

Houvesse a pretensão de melhorar o Senado, de coibir a confusão entre o público e o privado que ali ocorre, então as coisas não deviam se dirigir apenas ao político maranhense, mas à maior parte da instituição. Só de raspão chegou-se a outros senadores. Nisso, e me limito a apenas isso, o senador Sarney tem razão: foi atacado agora porque é aliado de Lula. Com isso, não se apagam os eventuais erros ou problemas de Sarney. Explica-se, no entanto, a natureza da empreitada da mídia.

A mídia podia se debruçar com mais cuidado sobre a biografia dos acusadores. Se fizesse isso, se houvesse interesse nisso, seguramente encontraria coisas do arco da velha. Mas, nada disso. Não há fatos para a mídia. Há escolhas, há propósitos claros, tomadas de posição. Que ninguém se iluda quanto a isso.

Do Sarney a Lina Vieira. Impressionante como a mídia não se respeita. E como pretende pautar uma oposição sem rumo. É inacreditável que possamos nós estarmos envolvidos num autêntico disse-me-disse quase novelesco, o país voltado para saber se houve ou não houve uma ida ao Palácio do Planalto. Não estamos diante de qualquer escândalo. Afinal, até a senhora Lina Vieira disse que, no seu hipotético encontro com Dilma, não houve qualquer pressão para arquivar qualquer processo da família Sarney - e esta seria a manchete correta do dia seguinte à ida dela ao Senado. Mas não foi, naturalmente.

Querem, e apenas isso, tachar a ministra Dilma de mentirosa. Este é objetivo. Sabem que não a pegam em qualquer deslize. Sabem da integridade da ministra. É preciso colocar algum defeito nela. Não importa que tenham falsificado currículos policiais dela, vergonhosamente. Tudo isso é aceitável pela mídia. Os fins, para ela, justificam os meios.

Será que a mídia vai atrás da notícia de que Alexandre Firmino de Melo Filho é marido de Lina? Será? Eu nem acredito. E será, ainda, que ele foi mesmo ministro interino de Integração Nacional de Fernando Henrique Cardoso, entre agosto de 1999 e julho de 2000? Era ele que cochichava aos ouvidos dela quando do depoimento no Senado? Se tudo isso for verdade, não fica tudo muito claro sobre o porquê de toda a movimentação política de dona Lina? Sei não, debaixo desse angu tem carne…

Mas, há, ainda, a CPI da Petrobras que, como se imaginava, está quase morrendo de inanição. Os tucanos não se conformam, E nem a mídia. Como é que a empresa tornou-se uma das gigantes do petróleo no mundo, especialmente agora sob o governo Lula e sob a direção de um baiano, o economista José Sérgio Gabrielli de Azevedo? Nós, os tucanos, pensam eles, fizemos das tripas coração para privatizá-la e torná-la mais eficiente, e os petistas mostram eficiência e ainda por cima descobrem o pré-sal. É demais para os tucanos e para a mídia, que contracenou alegremente com a farra das privatizações do tucanato.

Acompanho o ditado popular “jabuti não sobe em árvore”. A CPI da Petrobras não surge apenas como elemento voltado para conturbar o processo das eleições. Inegavelmente isso conta. Mas o principal são os interesses profundos em torno do pré-sal. Foi isso ser anunciado com mais clareza e especialmente anunciada a pretensão do governo de construir um novo marco regulatório para gerir essa gigantesca reserva de petróleo, e veio então a idéia da CPI, entusiasticamente abraçada pela nossa mídia. Não importa que não houvesse qualquer fato determinado. Importava era colocá-la em marcha.

Curioso observar que a crise gestada pela mídia com a tríade Sarney-Lina-Petrobras, surge precisamente no mesmo período daquela que explodiu em 2005. Eleições e mídia, tudo a ver. Por tudo isso é que digo que a mídia constitui-se num partido. Nos últimos anos, ela tem se comportado como a pauteira da oposição, que decididamente anda perdida. A mídia sempre alerta a oposição, dá palavras-de-ordem, tenta corrigir rumos.

De raspão, passo por Marina Silva. Ela sempre foi duramente atacada pela mídia enquanto estava no governo Lula. Sempre considerada um entrave ao desenvolvimento, ao progresso quando defendia e conseguia levar adiante suas políticas de desenvolvimento sustentável. De repente, os colunistas mais conservadores, as revistas mais reacionárias, passam a endeusá-la pelo simples fato de que ela saiu do PT. É a mídia e sua intervenção política. Marina, no entanto, para deixar claro, não tem nada com isso. Creio em suas intenções de intervenção política séria, fora do PT. Neste, teve uma excelente escola, que ela não nega.

Por tudo isso, considero essencial a realização da I Conferência Nacional de Comunicação. Por tudo isso, tenho defendido com insistência a necessidade de uma nova Lei de Imprensa. Por tudo isso, em defesa da sociedade, tenho defendido que volte a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Por tudo isso, tenho dito que a democratização profunda da sociedade brasileira depende da democratização da mídia, de sua regulamentação, de seu controle social. Ela não pode continuar como um cavalo desembestado, sem qualquer compromisso com os fatos, sem qualquer compromisso com os interesses das maiorias no Brasil.

 
 

Deus nos livre dos especialistas!

Nunca pensei que a descoberta de uma gigantesca bacia petrolífera como o pré-sal pudesse ser um problema para o País. Lendo a imprensa estrangeira tenho a nítida sensação de que uma tal façanha deveria ser motivo de muito orgulho para nós brasileiros. Mas, ao assistir a cobertura jornalística da nossa imprensa sobre o novo marco do pré-sal, apresentado pelo presidente Lula em cerimônia na segunda-feira passada, porém, fui tomado de assalto por impressão totalmente diversa. Não vou me estender no assunto, uma relação das manchetes pode ser encontrada nos sites dos conceituados jornalistas Luís Nassif e  Paulo Henrique Amorim, aqui e aqui. Difícil imaginar que o público esteja entendendo alguma coisa diante de tão pouca informação e tanta histeria. O tom adotado foi, quase sempre, condenatório. Mas vergonha mesmo eu senti quando assisti meus colegas Christiane Pelajo e Willian Waack levantando a bola para um sujeito fazer lobby, no Jornal da Globo, em prol das empresas estrangeiras.
Observe como o comentarista convidado é apresentado por Waack: "Adriano Pires", "diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura" (no site do CBIE, "infraestrutura" consta assim, "infra estrutura", com espaço e sem hífen) e "especialista em política de petróleo". Ah, os especialistas! Se a mídia quer alguém que apenas respalde a tese pronta das editorias, o nome é esse: “especialista”. Resta saber: especialista em quê? O termo é um eufemismo tosco e largamente utilizado para conferir status e, ao mesmo tempo, esconder do telespectador os verdadeiros predicados do convidado. Por essa mágica é que um Luiz Carlos Mendonça de Barros é apresentado frequentemente nos jornais da Rede Globo como “especialista” ou “economista”, sem a informação relevante de que é também um expoente do PSDB, ex-ministro das comunicações de FHC, defenestrado por clamor público ao ser flagrado em gravação, durante o processo de privatização da telefonia, “no limite da irresponsabilidade”.
Quem é, então, Adriano Pires? o que é o CBIE? recorremos ao próprio site da empresa: uma consultoria (outro eufemismo frequentemente usado para a atividade de lobby) em energia, criada "em 2000 em resposta ao rápido crescimento do mercado de energia no país e pela percepção de seus fundadores de que as empresas tradicionais não atendiam às necessidades dos novos participantes do mercado em um ambiente dinâmico envolvendo mudanças complexas" (hummm... deixa ver se eu entendi, as "empresas tradicionais" seriam as estatais e as "mudanças complexas" seriam as privatizações e o fim do monopólio da Petrobrás?). Agora, o melhor: "Nossa vantagem comparativa é o domínio dos fundamentos do mercado e a combinação única da experiência no mercado de nossos profissionais com a sua atuação em órgãos governamentais ligados aos segmentos onde atuamos." Traduzindo: trabalhamos no governo mudando as regras e adquirindo toda a expertise para, depois, vendermos tudo isso ao mercado e ficarmos podres de ricos. Uma especialidade sacramentada durante o governo FHC que gerou, por exemplo, abominações como um Daniel Dantas.
Para eliminar qualquer sombra de dúvida, o site diz ainda: "A necessidade de reestruturação do setor elétrico, evidenciada pela recente crise nacional de suprimento de eletricidade” (aqui o site, um tanto desleixado com a atualização das informações, se refere ainda ao apagão ocorrido no governo FHC, que causou um prejuízo de R$ 45 bilhões a todos nós brasileiros) “...e a recente abertura do mercado de combustíveis líquidos são alguns poucos exemplos de situações formidáveis a serem encaradas pelos participantes do mercado." É aquela velha história do anagrama chinês: a crise de uns (a nação, o povo) pode significar oportunidade para outros (os neoliberais e essa entidade diáfana conhecida como “o mercado”).
Mas qual o papel jogado por Adriano Pires na "recente abertura do mercado de combustíveis líquidos"?  Adriano foi Superintendente da ANP e assessor do primeiro Diretor-Geral da agência, David Zylbersztajn, condutor do processo de quebra do monopólio da Petrobrás na exploração do petróleo brasileiro, durante o governo FHC. Realizaram o primeiro leilão de áreas de exploração aberto à iniciativa privada, nos dias 15 e 16 de junho de 1999. Ressalte-se que Zylbersztajn vem a ser outro "especialista" que, por "coincidência", também apareceu na mesma segunda-feira do anúncio do novo marco, na rádio CBN, “a rádio que troca a notícia”, diz um trocadilho bastante popular na blogosfera, também das Organizações Globo. Ali, apresentado sumariamente como "ex-diretor da ANP e professor da PUC", o “especialista” obviamente se pôs a desancar a proposta de Lula. O apresentador do programa "esqueceu" de informar não só que Zylbersztajn conduziu a quebra do monopólio durante o governo que hoje faz intransigente oposição a Lula, mas principalmente a relevante qualificação que o teria guindado a tão importante cargo: Zylbersztajn era, à época, genro do presidente. Em tempo: coincidência das coincidências, ao se separar da filha de FHC e deixar a ANP, Zylbersztajn também abriu uma empresa de “consultoria” na área, de nome DV. Como Adriano Pires, que seria escalado pela mesma CBN, um dia depois. Outro “especialista” requisitado pela grande imprensa essa semana foi Luiz Leonardo Cantidiano, ex-presidente da CVM com um longo histórico de serviços prestados nas fileiras de FHC. As “especialidades” de Cantidiano foram longamente descritas em post recente de Paulo Henrique Amorim, que se refere a ele como “especialista em Daniel Dantas”. A oposição criou a “Rede anti-pré-sal”. Ou seria “Rede anti-Lula”?
Voltando a Adriano Pires, vale lembrar outra de suas importantes qualificações, a de membro do Instituto Liberal, criado por empresários no início dos anos 80 para difundir os princípios do neoliberalismo no Brasil e sustentado por grandes grupos econômicos. O maior deles a... Shell. Ah, bom! O fato é que este liberal que honra nossa pátria e povo sempre se esmerou em esculachar qualquer iniciativa do governo Lula que não estivesse de acordo com o credo rezado por ele e sua igreja, qual seja, os valores sagrados do livre-mercado e do Estado mínimo. Um estudo bastante interessante sobre os chamados institutos liberais pode ser encontrado aqui.

Profetas do apocalipse

As opiniões “especializadas” de Adriano Pires vêm de longe, ou melhor, datam precisamente do início do governo Lula, com a condução, pela então ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, do novo modelo do setor energético. Em meados de 2003, Pires opinava, nas páginas do Valor, que o modelo poderia “elevar os riscos regulatórios e inibir os investimentos privados na expansão do sistema elétrico em virtude do aumento da politização setorial” e que “dificilmente alcançaria os objetivos desejados”. Ao Jornal do Commercio, disse: “Acho que não existe a menor chance de esse modelo ser implementado.” Em fevereiro de 2004, em O Globo, Adriano Pires era apresentado como “especialista em energia” e ainda vaticinava, ameaçador, que “o racionamento só não deverá acontecer se a economia brasileira crescer apenas em torno de 2% ao ano até 2007. ” Todos sabemos o que aconteceu: de lá para cá, o Brasil cresceu não 2%, mas a uma taxa média de 4,7%! (2004:5,70%;2005:3,16%;2006:3,97%;2007:5,67%;2008:5,10%) E o Brasil não teve nem apagão, nem racionamento. O “especialista” estava errado. E decidiu trocar de “especialidade”: da energia elétrica para o pré-sal. Alheia a suas previsões furadas, a “grande imprensa” continua recorrendo às “especialidades” dele.
Não é de estranhar, portanto, a volta de toda essa arenga de Adriano Pires, amplificada pelas Organizações Globo e outros grandes veículos de mídia, alheios às previsões fracassadas do passado e unidos em torno da velha máxima fundamentalista de “atrair capitais privados e investimentos estrangeiros”. Ninguém sabe exatamente porque e a que custo, sobretudo quando percebemos que foi esse modelo de “máxima desregularização” que colocou o mundo na crise atual, a um custo de milhões de novos esfomeados no mundo. Na hora da onça beber água, não foram os “capitais privados”, mas as iniciativas do governo e de suas empresas, que protegeram o povo de uma catástrofe (isso em qualquer país do mundo. No Brasil apenas deu mais certo). Na hora “H”, não foram os “investimentos estrangeiros”, mas o mercado interno, que salvou o País. E foi precisamente a Petrobrás, com sua gigantesca capacidade de investimento, uma das principais razões do êxito brasileiro em sair, mais rapidamente e com danos mínimos, da crise que continua ameaçando tantos países, inclusive do primeiro time. A empresa é responsável, até 2010, por investimentos da ordem de R$ 171,7 bilhões, cerca de um terço dos investimentos previstos no PAC. Ou seja: esse orgulho nacional é hoje, indubitavelmente, o principal motor do País.
E o caso do Banco do Brasil? Recordemos: há não muito tempo, os investimentos secavam e o mercado estagnava no auge da crise econômica internacional. O governo baixava os juros mas não tinha retorno dos bancos que se recusavam a acompanhá-lo. Numa aposta ousada, corajosa, Lula decidiu trocar o presidente do BB. A decisão foi criticadíssima pelo mercado e seus porta-vozes de sempre na mídia. “Especialistas” foram convocados para apontar uma indevida “ingerência política”, em detrimento dos investidores. Lula peitou o mercado, o BB e a Caixa baixaram ainda mais suas taxas, que já estavam abaixo da concorrência, o crédito disparou e ajudou a manter o consumo, a produção e os empregos. O mercado e a oposição torciam para um resultado ruim do BB para que pudessem falar: “eu não disse?” Mas quem disse foi o governo: Com o mundo em crise, o Banco do Brasil registrou lucro líquido de R$ 4 bilhões no 1° semestre, 0,6% maior em relação ao mesmo período de 2008 e o maior dos seus 201 anos de história.
Com a Petrobrás não foi diferente. Ontem mesmo, enquanto as viúvas do atraso alardeavam suposta ingerência do governo e uso político-eleitoral da Petrobrás, levantamento da consultoria Economática revelou que a empresa lucrou US$ 3,963 bilhões no período de abril a junho deste ano, tornando-se a segunda empresa mais lucrativa das Américas, atrás apenas do Citigroup. Dá pra entender o porquê de tanto olho gordo... (No momento em que escrevo, leio sobre a descoberta de um poço gigantesco no Golfo do México, em que a Petrobrás também tem participação. Tá difícil, hein, oposição?)
E dá-lhe CPI da Petrobrás para desacreditar a empresa! Ainda que mesmo o xerife da Receita nos tempos de FHC tenha sido categórico em classificar como farsa, factóide, a acusação da oposição de que a Petrobrás havia se valido de artifícios contábeis para sonegar impostos (uma das acusações que serviram de base para a abertura da CPI), a mídia não pediu desculpas, não se corrigiu e continua mandando a mesma versão às suas manchetes diuturnamente, confiante de que somos todos imbecis.
Por tudo isso, seja por dogmática ignorância ou por mesquinhos interesses eleitorais e/ou financeiros, é triste ver brasileiros montando espetáculos burlescos, verdadeiras farsas para constranger o governo e desacreditar as maiores empresas nacionais. Sobretudo quando estão envolvidos, até a medula, colegas jornalistas que não podem alegar a seu favor qualquer tipo de desinformação. E quando recorrem ao auxílio dos “especialistas”, sobretudo esses dos quais já sabemos bem o que esperar, é tão somente para que eles reforcem aqueles pontos de vista que os profissionais da imprensa, por algum pudor que ainda lhes reste, não têm coragem de defender abertamente. Mas o mundo mudou. Embora alguns ainda não tenham se dado conta, sabe-se que a maioria do povo brasileiro não dá mais tanta bola para o velho dogma de que tudo o que está escrito ou foi exibido na TV corresponde à verdade inquestionável.
Para esses colegas é mais cômodo convocar especialistas ou disponibilizar os holofotes para a grita da oposição. Expressa por exemplo na nota que PSDB, DEM e PPS apresentaram, essa semana, a respeito dos planos do Governo para o pré-sal: "O oba-oba palaciano tem o objetivo explícito de transformar o tema em plataforma eleitoral para 2010. No entanto, ao apresentar o modelo que considera mais conveniente para suas pretensões eleitorais de curto prazo, o governo também abre espaço para uma grande discussão nacional, que deveria estar acima de partidos e candidaturas"...
O desespero dessa gente é constatar que o Governo Lula tem projetos de sobra para fazer “oba-oba” e “transformar em plataforma eleitoral”, enquanto eles têm a coragem de ir à TV para se gabar de seus dois únicos “grandes” projetos: um, o eterno "Plano Real", de 15 anos atrás e implementado pelo governo Itamar Franco; outro, um grande "choque de gestão" nos fumantes de São Paulo. Piada! Com uma plataforma política tão pobre, só mesmo mentindo. E com a ajuda dos bons e velhos “especialistas”.

Fiquem, abaixo, com o pronunciamento do presidente Lula à nação, neste último 7 de setembro, cujo tema foi justamente o pré-sal:

 
 

Público de Veneza aplaude Chávez e fim do capitalismo

Ainda não caiu a ficha para os velhos reaças da nossa "grande imprensa", mas o mundo está realmente mudando. 66º Festival de Veneza, essa semana. Dois filmes foram aplaudidíssimos pelo público:

  • "South of the Border", documentário de Oliver Stone dedicado ao presidente venezuelano, Hugo Chávez;
  • "Capitalism: A Love Story", o último petardo de Michael Moore contra o sistema, que clama pelo fim do capitalismo.

Como diria aquela nossa socialite-sorriso... "Ai, que loucura!" Tonto

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