Rio 2016: Lula é "o cara" MESMO!!!

Eu sei que sempre vai ter um mané pra botar água no chopp da comemoração dos brasileiros. Na impossibilidade de qualquer crítica séria para uma sequência quase perfeita de eventos felizes do nosso atual governo, sei que algum desafortunado ainda há de vir me advertir, em tom solene, sobre  os perigos de um ufanismo incipiente. Querem saber? Que se dane! Como falar de ufanismo quando o que nós vemos o tempo todo são brasileiros falando mal de seu próprio país e de seu próprio povo? Falar de ufanismo diante de clichês irritantes como “o Brasil não é um país sério", "esse é o Brasil" ou "o Brasil não tem jeito" que frequentam nossas caixas de e-mail e nossa mídia? Falar de ufanismo quando o que menos fazemos é nos ufanar?
Não, não vejo risco nenhum de ufanismo diante desse eterno complexo de vira-lata do brasileiro, tão habituado a fazer pouco de si, a se colonizar e se submeter. Não corremos risco de ficarmos tão ufanistas quanto nossos irmãos do norte, a ponto de só enxergarmos o próprio umbigo. Aliás, tudo o que precisamos é começar a olhar, pela primeira vez, para o nosso umbigo, enxergando finalmente toda a grandeza desse novo Brasil, admirado e respeitado pelo mundo, um Brasil que não tem vergonha de seu povo, de sua gente, não por condescendência ou paternalismo, mas porque foi essa gente, esse povo guerreiro, amistoso e criativo - representado na figura bonachona de um ex-torneiro mecânico nordestino - que colocou o Brasil em sua merecida condição de protagonista, de potência global.
Esse momento em que o Brasil acaba de ganhar de lavada de EUA, Japão e Espanha, tornando-se o primeiro país a realizar uma olimpíada na América Latina, é o momento certo para coroar toda uma sequência de êxitos inquestionáveis, cuja cronologia exponho abaixo, para nos encher de merecido orgulho. E minha única tristeza é que a esmagadora maioria dessas notícias foi estampada em jornais estrangeiros, porque as grandes empresas jornalísticas brasileiras servem a outros interesses, que não os do jornalismo, que não os da afirmação do Brasil no mundo. Hoje, você, brasileiro como eu, pode comemorar à vontade porque você merece. Pule, ria, grite, comemore, sem medo de ser feliz: Viva o Rio! viva o Brasil! viva Lula! viva o povo brasileiro!
 

E hoje, 2 de outubro de 2009, o Brasil, que já havia conquistado o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014, conquista, pela primeira vez em sua história e na América Latina, o direito de sediar uma Olimpíada, a de 2016.

Assista o discurso de Lula que deu a vitória à campanha do Rio:

Assista a emocionante entrevista coletiva que Lula deu após a vitória do Rio:

 
 

No dos outros é refresco!

Uma notícia de arrebentar...  "Galinha morre ao botar ovo de 115 gramas".

 
 

Honduras: quando a imprensa é atropelada pelos fatos

Sem comentários. Apenas ouça as catracadas que Carlos Alberto Sardenberg, o profeta do caos e o rei do sorrisinho debochado, levou na CBN. E depois leia os dois belos artigos de Luis Nassif e Luiz Carlos Azenha.

1ª catracada: Marco Aurélio Garcia 1 x 0 Sardenberg

MAG: "Sardenberg, olha só, é a sua palavra contra a de outras pessoas... você não tem nenhum elemento de credibilidade pra essa tese" (diante da insistência de Sardenberg em acusar Chávez - sem provas - de ter levado Zelaya de volta para Honduras)

Sardenberg: "Não, pelo menos o avião ele precisou, do-do-do... Hugo Chávez"

MAG: "Ele não voltou de avião, ele voltou por terra!"

2ª catracada: Comunidade internacional em Bruxelas 1 x 0 Sardenberg

Para desespero de Sardenberg, toda a comunidade internacional apóia a posição do governo brasileiro.

...

Viomundo:

Uma surra dos fatos. Literal

Atualizado em 30 de setembro de 2009 às 18:40 | Publicado em 30 de setembro de 2009 às 18:32

por Luiz Carlos Azenha

Na quinta-feira da semana passada o Jornal Nacional do Ali Kamel produziu uma "reportagem" justificando o golpe em Honduras.

Já escrevi a respeito, está aqui

Teria sido apenas um "golpe constitucional", baseado no artigo 239 da Constituição hondurenha. Um golpe democrático, ou para salvar a democracia. A mesma justificativa que o jornal O Globo deu, em editorial, para festejar o golpe de 64 no Brasil.

Leia aqui como o jornal O Globo amou o "movimento de 64"

Ali Kamel aparentemente não leu toda a Constituição hondurenha. Convenientemente, ele se esqueceu de ler os artigos que dizem respeito ao direito de defesa e à presunção de inocência. Talvez ele não se interesse tanto assim por Honduras. Ou talvez subscreva cegamente a teoria neocon segundo a qual Hugo Chávez é culpado pelo aquecimento global, pelos congestionamentos em São Paulo e pelo mato que cresce no Jardim Botânico.

Os neocons americanos e a versão caricatural deles que cresce mais que mato no Brasil já faz tempo se dedica a fazer do antichavismo a versão recauchutada do anticomunismo. São trapaceiros intelectuais cujo discurso irracional encobre a falta de argumentos. Desde o macartismo o discurso dessa turma é o mesmo: o mundo está cheio de bichos papões dos quais você não conseguirá se defender, a não ser com nossa ajuda.

Isso até faz algum sentido político quando dito em Washington. Afinal, o neoconservadorismo é um movimento genuinamente americano, cujo valor central é a promoção da supremacia política, econômica e militar dos Estados Unidos. É a versão contemporânea daqueles discursos que sustentavam a supremacia racial dos europeus para justificar as barbáries que praticavam na África, na Ásia e na América Latina.

Há um tom religioso, milenarista na argumentação dos neocons. Eles precisam desesperadamente apresentar os outros como encarnações do demônio. Só assim conseguem vender seus serviços como exorcistas. Já viram as capas de Veja sobre o MST? Então já entenderam o que quero dizer.

Mas eu dizia que os neocons americanos fazem sentido no contexto político e econômico dos Estados Unidos. E lá eles genuinamente se dão bem. São requisitadíssimos como tropa de choque intelectual de interesses econômicos gigantescos. Querem saber quem são? É só ver quem sustenta as duas dúzias de institutos de Washington que servem de poleiro aos neocons locais. E dar uma olhada nos patrocinadores de revistas tipo Weekly Stardard, onde eles pagam marra de "inventores do mundo" diante da elite subintelectual de Washington.  

Os neocons brasileiros são subamericanos, assim como a parte "bem-sucedida" da geração de FHC era subeuropéia. Só conseguem se ver assim, ora em uma relação de subordinação, ora em um relação de superioridade diante de seus interlocutores. Trocando em miúdos, descontam no Hugo Chávez e no Evo Morales o profundo sentimento de inferioridade que nutrem em relação aos genuinamente brancos de olhos azuis. Qualquer idéia original, não sectária, é uma ameaça a essa construção mental e, por isso, precisa ser esmagada, especialmente se não tiver recebido "certificação" superior. Por isso, Lula é a encarnação de tudo o que deu errado com o Brasil. E Chávez, na Venezuela.

O que nos leva a Zelaya, que é Chávez. E, se Zelaya é Chávez, tem parte com o demônio. Portanto, quem combate Zelaya é divino. Assim, Micheletti é divino. Do que resulta a reportagem segundo a qual Micheletti assumiu o poder de forma constitucional.

É esse pensamento simplista, binário -- no popular, de tico e teco -- que guia hoje o jornalismo da mais importante empresa de televisão do Brasil.  E é divertido quando os fatos se encarregam de espancá-lo.

Horas depois da Globo dizer que Micheletti tinha apenas seguido o artigo 239 da Constituição hondurenha ao assumir o poder, o homem baixou um AI5. Fechou uma rádio e uma emissora de TV. Hoje, em Tegucigalpa, a polícia espancou um colega da Globo, jornalista da maior competência, que aparentemente "ameaçou" os soldados fortemente armados. O mesmo já havia acontecido com repórteres locais e mexicanos. Sem falar nas centenas de pessoas que foram mortas, presas ou espancadas ao longo dos últimos noventa dias pelo "governo interino e constitucional" do JN, pelas quais a emissora passou batido. 

O golpe em Honduras não foi golpe apenas porque o presidente constitucional foi tirado de pijama do país, sem direito a defesa, nem julgamento. O golpe representou repressão a todas as demandas sociais dos eleitores de Zelaya. Ele aconteceu em uma região marcada pela supressão brutal e histórica de demandas sociais, frequentemente promovida e em benefício de um pequeno grupo  e em detrimento da grande maioria. Foi, portanto, uma quartelada clássica, independentemente das filigranas jurídicas que o editorialista "ditabranda"  da Folha e o Ali Kamel nos querem impingir.

Nessa hora eu gostaria muito de ver o Kamel em Tegucigalpa, cobrindo o "governo interino" de Micheletti, aquele que assumiu o poder "por acaso".

...

Luis Nassif Online:

01/10/2009 - 08:28

Honduras: mídia é surrada pela notícia

Esse jornalismo de hipóteses que caracteriza o neojornalismo tupininquim não tem receio da desmoralização, do fato de diariamente tentar passar a perna nos seus leitores – tendo como testemunhas toda a Internet.

Tome-se um caso. A diplomacia norte-americana se enrolou com o caso. A Secretaria de Estado Hillary Clinton adotou uma posição legalista no caso Honduras. Otto Reich, especialista americano da era Bush – influente, com participação na tentativa midiático-empresarial de tentar depor Hugo Chávez – conseguiu convencer parte do parlamento sobre o risco Zelaya. Houve um descompasso que levou o embaixador norte-americano na OEA a criticar Zelaya.

O que era um problema da diplomacia norte-americana – o de não ter uniformizado o discurso sobre o tema – foi colocado como uma crítica ao Brasil. Nem se cuidou de informar que a posição da Secretária de Estado era outra.

Agora, dia após dia vão surgindo sinais de que a posição diplomática brasileira – de firme condenação do golpe de Estado – era correta. Que a convocação do plebiscito serviu de álibi para um golpe de Estado, em que se tirou o presidente eleito sem sequer permitir o direito de defesa.

Desde o início o Itamarati alertava que Micheletti não era confiável, que não se podia fiar na sua palavra. Por efeito pavloviano, toda essa brilhante mídia preferia ficar com Micheletti a dar crédito ao Itamarati.

Agora, toda essa armação, toda esse inacreditável jornalismo de hipóteses – endossado por dez entre dez comentaristas da mídia, em uma homogeneidade admirável – vai ruindo.

Na Folha Online (clique aqui) a afirmação de Micheletti de que Zelaya foi deposto por suas novas inclinações esquerdistas.

Na Folha impressa, entrevista do Sérgio D’Avila com o Secretário-Geral da OEA, endossando plenamente a posição brasileira:

A OEA (Organização dos Estados Americanos) está disposta a aceitar uma nova proposta de conciliação vinda de Honduras, desde que ela use como base o Acordo de San José, elaborado pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias, que prevê a volta de Zelaya, a manutenção das eleições para eleger seu sucessor e o abandono pelo presidente deposto da tentativa de promover uma Assembleia Constituinte considerada ilegal por Congresso e Justiça hondurenhos. A revelação foi feita pelo secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, em entrevista na manhã de ontem por telefone à Folha. (clique aqui).

Ou seja, um marciano que chegasse à terra e lesse esses dias todos de jornalismo de hipóteses, concluiria que o Itamarati levou dez gols, não marcou nenhum e terminou vitorioso.

 
 

Vale a pena ver de novo: Fama e A Hora do Pesadelo

Dando sequência à onda "saudosista" (para não dizer pouco criativa) que tomou conta da mídia mundial, estão previstos para os próximos meses mais dois remakes de filmes que marcaram os anos 80: Fama e A Hora do Pesadelo. Abaixo, o novo e o velho, em perspectiva.

Vamos começar pelo mais gaiato, embora não menos marcante pelo que legou à indústria cultural: a saga de um dos assassinos seriais mais assustadores da telona foi apresentada ao mundo em 1984 e espalhou o pânico, além de uma série de sequências irregulares, pelo mundo. Junte um especialista, Wes Craven, um monte de adolescentes bonitinhos, um vilão tão carismático quanto feio, magistralmente vivido por Robert Englund (nascido para o papel) e ponha tudo isso a serviço de uma boa história: imagine que um vilão tivesse a capacidade de nos levar para o mundo dos pesadelos e que uma morte lá equivalesse a uma morte no mundo real. Brrrrrr... não durma!

Por falar nisso, não é improvável que o cult de terror "Não Adormeça", de 1982, tenha sido uma inspiração para Wes Craven fazer sua série de pesadelos da Rua Elm. Abaixo, uma sequência do original com o velho Freddy fatiando um dos maiores atores de Hollywood hoje, à época em sua estréia no cinema, e em seguida o trailer do remake. Particularmente, acho que ficou legal, só não gostei muito da maquiagem, que tira a expressividade do FK, coisa que com Englund sobrava.

Já com Fama o buraco é beeeeem mais embaixo! Primeiro, o original de 1980 é uma obra-prima de Alan Parker, uma de muitas do diretor talentosíssimo de O expresso da meia-noite, Pink Floyd - The Wall, Asas da liberdade, Coração satânico, Mississippi em chamas, Commitments - Loucos pela fama e A vida de David Gale, dentre outras. Com uma bela fotografia que destacava ao mesmo tempo a plasticidade dos corpos de jovens dançarinos e os dramas íntimos desses jovens descobrindo a vida, Parker realizou uma espécie de Flashdance sem pieguice e muito mais sensível na abordagem das emoções, sem recorrer às soluções simplistas comuns a filmes do gênero. Com narrativa ágil, Fama é um musical incomum, nunca é chato. O sucesso do filme, quando de seu lançamento, não gerou sequências como A Nightmare on Elm Street, mas uma série televisiva, com o mesmo elenco básico, que acabou sendo um dos musts daquela década. Não houve quem não se emocionasse com a rebeldia e o ritmo do dançarino negro Leroy. Por tudo isso eu acho difícil que o novo Fama chegue perto do original, mas enquanto não podemos tirar a prova dos nove, disponibilizo mais uma vez os dois em perspectiva: primeiro, minha sequência preferida do Fama de Alan Parker, Hot Lunch, o show no bandejão, com Irene Cara arrebentando no vocal; depois, o trailer do novo filme. Divirtam-se:

 
 

São Paulo e o PCC: o filme que não foi feito

Eu já tinha falado aqui sobre as vítimas insepultas do maio sangrento de São Paulo e do Oscar a ser recebido por Alckmin se Salve Geral, por milagre, vier a ser um dos escolhidos. Mais importante, porém, faltou falar das mães, essas que, pela extrema cumplicidade entre os grandes grupos de mídia e a dinastia PSDB/DEM que se instalou em São Paulo há 16 anos, não têm seu desespero destacado e repercutido no noticiário. Aí vai uma reportagem, tão corajosa quanto solitária, que corrige isso:

01/10/2009 - 07h01
"Mães de maio" dizem que filme sobre PCC conta meia-verdade
Rodrigo Bertolotto
Do UOL Noticias
Em São Vicente (SP)A combinação de cinema nacional e realidade policial rendeu indicação para prêmios e muita polêmica nos últimos anos com "Carandiru", "Cidade de Deus", "Tropa de Elite" e "Última Parada 174". E não vai ser diferente com "Salve Geral - O Dia em que São Paulo parou", do diretor Sérgio Rezende, que estreia nesta sexta (2). Até as mães de vítimas do maio sangrento de 2006, pano de fundo do enredo, criticam o filme.

"Esse filme não mostra a matança sobre a sociedade civil. Pelo que li, a história termina no terceiro dia, na segunda, e as mortes continuaram por mais cinco dias", aponta Débora Maria da Silva, que preside a Associação de Amparo a Mães e Familiares Vítimas de Violência. Em uma cena curta, uma dupla de policiais alveja dois garotos na rua a esmo. Em outra sequência, um PM perdoa a vida do filho da protagonista, por haver testemunhas no local.

O grupo é mais conhecido pelo codinome "mães de maio", uma referência ao grupo familiares de vítimas mais conhecido mundialmente, "Madres de la Plaza de Mayo", que luta pela punição dos crimes da última ditadura na Argentina (1976-1983).

Aliás, a dimensão do que aconteceu na semana sangrenta no Estado de São Paulo é demonstrada se comparada com os números do regime militar brasileiro: foram assassinados a tiros 493 pessoas entre 12 e 20 de maio de 2006 em território paulista, enquanto 424 é o total de mortos e desaparecidos pela repressão da ditadura de 1964 a 1985.

O foco principal do filme, que é o indicado brasileiro para a lista final do Oscar de filme estrangeiro em 2010, é a relação entre mãe de classe média e filho presidiário, com ambos se envolvendo com uma facção criminosa que em tudo se parece com o PCC - até é chamada de "o Partido". "Ele não retrata a realidade das mães. Não me sinto representada", afirma Débora sobre o papel interpretado por Andréa Beltrão, que acaba ajudando a advogada da facção, e até se envolvendo sexualmente com um líder criminoso, inspirado em Marcos Herbas Camacho, o Marcola.

Para aumentar a temperatura do assunto, nesta quinta-feira (1º) começa o julgamento de Marcola e Júlio César de Moraes, o Julinho Carambola, pelo assassinato em 2003 de Antônio José Machado Dias, o então juiz-corregedor de Presidente Prudente - seja dito de passagem, esse caso também entra na trama de "Salve Geral".

Depois de ser alvo dos meios policiais, que, em blogs e entrevistas, apontaram desde parcialidade ou ingenuidade do diretor (a principal crítica é apresentar o PCC como defensor dos direitos dos presos e não como uma máfia, como apontam as autoridades locais).

O filme reproduz o tradicional tema da morte dolorosa (a produção anterior de Rezende, "Zuzu Angel" cercava o mesmo mote), mas a figura materna ficcional aceita sem pestanejar as regras do jogo de corrupção e violência. Já as "mães de maio" lutam para que esse estado de coisas mude.

"O problema é que as chacinas promovidas por encapuzados e esquadrões da morte continuam. Isso acontece porque não houve justiça", se queixa Vera Lucia de Freitas, mãe de Mateus, morto a tiros com 21 anos após voltar da escola em São Vicente, litoral paulista.

Junto com ele, foi alvejado seu colega de classe Ricardo Noronha, 17, que tinha acabado de passar em uma peneira do Santos Futebol Clube. "Era a paixão dele. Podia estar agora defendendo o Brasil, mas foi executado", afirma Débora, a líder do grupo santista.

O filho dela caiu primeiro. O gari Edson Rogério Silva dos Santos foi morto na mesma calçada que varreu na manhã do dia 15 de maio de 2006. Após ter sido detido por suposto envolvimento em assalto, ele tentava a reabilitação social. A passagem, contudo, decretou sua condenação à morte por um grupo usando toucas ninjas.

A semana sangrenta teve como estopim a transferência de prisão de vários líderes do PCC. Como retaliação, o grupo criminoso promoveu dezenas de rebeliões prisionais e execuções de agentes do Estado, que ficou a cargo dos indultados pelo Dia das Mães.

Um total de 43 policiais, bombeiros e carcereiros foram assassinados entre sábado e domingo. A reação veio ainda na noite do domingo e foi até o sábado seguinte e vitimou 450 civis, ou seja, dez para cada baixa das forças de segurança.

A Ouvidoria da Polícia de São Paulo juntou indícios de atuação policial em grupos de extermínio, em um total de 54 casos com "características de execução sumária". "Os laudos mostram tiros de cima para baixo, com a mesma bala atravessando a mão e o crânio, o que aponta que a pessoa estava em posição defensiva. Além disso, os restos de pólvora em torno dos orifícios são típicos de que o assassino estava próximo", explica o ouvidor Luiz Dantas.

Outros casos suspeitos são as 48 ocorrências de "resistência seguida de morte", em que o PM estava em serviço e descreveu que matou após o suspeito não permitir a detenção. "Esse termo não existe na legislação. E o problema é que quem matou aparece no boletim como vítima e a pessoa morta ainda é incriminada", relata Dantas.

O ouvidor afirma que há indícios da participação policial nas chacinas. "Vários depoimentos falam que uma viatura policial passou pelos locais e identificaram pessoas minutos antes que carros pretos com encapuzados chegassem para executar", conta.

A líder das mães é mais taxativa. "Eu atribuo à PM a morte do meu filho", diz Débora, que pede indenização ao Estado, como receberam no ano passado os familiares dos policiais vitimados. Com a comprovação de que por trás das toucas estavam policiais, as mães usam o argumento de que o Estado não ofereceu segurança naquela semana para pedir reparação.

"O Estado não se aparelhou para frear aquela onda de violência. Já que o nexo policial é difícil de caracterizar, afinal, os autores estavam mascarados, as cápsulas de bala foram retiradas e os mortos levados a hospitais antes da chegada da perícia", diz a defensora pública Vânia Pereira, que está à frente de dois casos contra a Fazenda Pública.

A resposta padrão da Secretaria de Segurança Pública é que não há comprovação da presença de agentes do Estado nas ações. Por isso mesmo, não há espaço para pedido público de desculpa. Essa possibilidade se torna ainda mais remota porque o governo mudou de mãos e havia um governo interino à época (Geraldo Alckmin havia se lançado candidato à Presidência e deixou o governo paulista para Cláudio Lembo).

"A morte do meu filho foi um crime político. Era ano de eleição e os poderosos não podiam mostrar que não controlavam a situação. Matar nossos filhos foi a solução", desabafa Débora. Vendo que mais de 60% dos casos foram arquivados e nenhum apontou culpado, sua associação, junto com outras ONGs (organizações não-governamentais), já pediu a federalização das investigações e levou a questão a OEA (Organização dos Estados Americanos).

As mães que viraram ativistas sociais contam que a polícia continua pressionando para que a luta delas não vá à frente. "Eu já sofria todo o tipo de perseguição. No mês passado, fui presa por oito dias acusada de associação ao tráfico. Os PMs chegaram falando que 'não damos viagem perdida' e forjaram o flagrante", conta Ednalva Santos, mãe de Marcos Rebello Filho, 26 à época, um surfista e funcionário de papelaria em São Vicente que foi morto quando saía de uma lan house.

Nas manifestações que participam, as "mães de maio" pintam o rosto de branco e desenham uma lágrima vermelha. "Para quem fala que nós somos as mães de bandidinhos, a gente mostra nossa luta, arriscando a própria vida", afirma Ednalva.

A reportagem do UOL Notícias procurou as corporações, sindicatos e associações dos agentes públicos de segurança, mas todas responderam que os familiares de policiais, bombeiros e carcereiros mortos em maio de 2006 não quiseram se pronunciar sobre o assunto.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, Homem, de 36 a 45 anos, Cinema e vídeo, Política